Coragem para fazer o bem Texto Pe. Tarcízio Morais, Provincial sdb Fotografia PEXELS

Coragem para fazer o bem

Editorial do Boletim Salesiano n.º 617 de setembro/outubro de 2026

Há tempos que pedem palavras. Outros pedem silêncio. O nosso pede coragem e ação. A coragem, simples e imensa, de fazer o bem, bem feito. Vivemos entre notícias de guerras, conflitos, catástrofes, pobreza e solidão. Discursos distorcidos e rostos feridos que atravessam os nossos ecrãs e, por instantes, entram em nossa casa. Vemos. Comovemo-nos. E depois? Depois há o risco de continuarmos caminho, absorvidos pela pressa dos dias, pelas agendas cheias, pelos compromissos, até pelos mais honestos e necessários. Mas quem crê não pode simplesmente passar adiante. Há uma humanidade caída à beira dos nossos caminhos. Às vezes longe, num país cujo nome mal sabemos pronunciar. Outras vezes tão perto: na casa ao lado, na escola, no trabalho, na nossa rua, talvez à nossa mesa. Uma humanidade ferida de muitas maneiras e sedenta de presença, de escuta, de amabilidade, de verdadeira fraternidade. É preciso parar. Parar para que o outro exista diante de nós. Aproximar-se. Escutar. Dar tempo. Tocar a ferida sem medo. Oferecer o ombro, a mão, o pão, a palavra. Porque fazer o bem raramente começa com gestos extraordinários. Começa quase sempre assim: alguém decide não passar adiante. Alguém que decide fazer-se próximo do seu próximo. No cinzento das cidades de pedra ou na vastidão silenciosa do mundo rural, precisamos uns dos outros. Nenhuma geração se basta. Os mais novos precisam dos mais velhos e os mais velhos dos mais novos. Precisamos da memória de uns, dos sonhos de outros, da inquietação dos jovens, da experiência dos adultos. Somos mais humanidade quando nos reconhecemos ligados. Partilhando vida. Jesus deixou-nos uma das mais belas imagens desta humanidade possível. Um homem caído. Outros que passam. E um samaritano que vê, se comove, interrompe a viagem e se aproxima. No final, poucas palavras: «Vai e faz tu também o mesmo». Vai. Faz. Talvez seja este o Evangelho de que o nosso tempo mais necessita. Menos discursos sobre o amor e mais amor transformado em presença, em gesto, em ação. Menos indiferença e mais compaixão. Menos muros e mais encontros. Menos dedos apontados e mais mãos estendidas. Desaprendemos, talvez, a compaixão. E, quando deixamos de sentir a dor do outro, ficamos menos humanos. A empatia da existência passa pelo dom de ser para o outro. Por isso, não nos pode desculpar a falta de tempo. Nem nos pode paralisar o não saber exatamente o que fazer. Há sempre um primeiro gesto possível. Há sempre um próximo mais próximo. Precisamos de samaritanos do bem. Gente que acenda luz onde cresce a escuridão. Que responda à violência com a força desarmada da bondade, ao egoísmo com a partilha, à solidão com presença, à desesperança com futuro. Educar é também isto. Evangelizar é também isto. Num mundo ferido, ter a coragem de parar. Ver. Aproximar-se. Cuidar. Amar. E depois seguir caminho, deixando atrás de nós um pouco mais de humanidade. Coragem!

Fotografia: PEXELS

Publicado no Boletim Salesiano n.º 617 de setembro/outubro de 2026

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