Pôr em relevo a nossa “visão”

Mensagem do Reitor-Mor, Pe. Fabio Attard, aos leitores do Boletim Salesiano.

Reflexão sobre Mc 10,46-52 – O cego Bartimeu. A narrativa da cura do cego Bartimeu, cego de nascença, não é somente a crónica de um milagre, mas uma verdadeira parábola em ação sobre a condição do discípulo. Este encontro entre Jesus e Bartimeu é o último episódio antes da entrada messiânica em Jerusalém, a charneira entre o mistério de Jesus e a sua paixão-ressurreição.

Bartimeu, o cego, que, uma vez curado, vê e segue, é o oposto luminoso dos discípulos que, apesar de ver, ainda não compreenderam. É neste horizonte cheio de contrastes que gostaria de propor três breves pensamentos.

1. Jesus toma a iniciativa

Antes de o cego gritar, Jesus “parte” de Jericó (v. 46). O grito do pobre cego muda tudo: Jesus torna-se disponível e aproxima-se dele: “então Jesus parou e disse: «Chamai-o!»” (v.49). A iniciativa divina dirige o próprio movimento para se tornar presente a quem grita à beira da estrada.

Este é um traço constante da pedagogia de Deus: quando nós “gritamos”, damo-nos conta de que Ele já nos encontrou. Este é o primeiro dom, podemos dizer o maior que possamos receber. No caminho da fé a “cegueira” que nos atinge de várias formas, não é uma condenação. É antes como uma ferida que pode ser curada. Quando a apresentamos a Jesus, a sua ação não cura apenas o doente, mas muda também o modo de ver de quantos estão próximos dele. Quer sejamos “cegos” nós mesmos, quer estejamos próximos de quem o é, a presença de Jesus faz sempre a diferença. Faz ver a todos as próprias “cegueiras”, as próprias indiferenças que muitas vezes estão escondidas. Jesus muda cada um de nós: dá a vista, suscita empatia, convida-nos a reconhecer que de algum modo todos temos necessidade de “luz”!

2. A humildade de reconhecer a própria cegueira e a disponibilidade para ser curados

Este primeiro passo acontece quando somos honestos connosco mesmos. Bartimeu não vê, mas tem voz. Apesar de o mandarem calar, grita ainda com mais força: a sua insistência não é arrogância, mas a forma que assume a humildade quando é autêntica. Porque a humildade não se cala perante a indiferença dos outros: conhece a própria necessidade e não se envergonha de a nomear: “Filho de David, tem piedade de mim!” (v. 48).

Este grito contém duas verdades: a primeira, é uma confissão de fé na pessoa de Cristo, pronunciada por quem não vê com os olhos do corpo, mas “vê” com clareza quem tem diante de si. A segunda é o reconhecimento sem vergonha da própria miséria, porque sabe que se encontra diante do Filho de Deus.

Quando é chamado, Bartimeu deita fora a capa, a única coisa que tinha. Nada deve detê-lo no momento em que é chamado. É uma imagem poderosa para nós hoje: a verdadeira cura que conduz à luz autêntica exige deixar aquilo a que nos agarramos por segurança, talvez até por medo.

Então a pergunta de Jesus a Bartimeu é a mesma pergunta que Jesus faz a cada um de nós hoje: “Que queres que eu te faça?” (v. 51).

Bartimeu pede a única coisa que serve: pede para “ver”. A verdadeira humildade é a capacidade de nomear com precisão a própria pobreza diante de Deus, sem a substituir por desejos de poder ou de gratificação superficial.

3. A teimosia de permanecer cego perante uma visão mais ampla

Um pensamento sobre a multidão que ao início queria fazer calar o pobre Bartimeu. Apetece-nos perguntar quem era verdadeiramente “cego” e talvez também “surdo”? A multidão com a sua indiferença representa uma “cegueira” diferente da cegueira física de Bartimeu: é a cegueira de quem vê muito bem, mas não quer ser perturbado na própria visão restrita das coisas. É a mesma cegueira que nos acompanha ainda hoje diante da pobreza que não queremos nomear, e muito menos encontrar.

Talvez seja esta a lição mais urgente para nós hoje: há cegueiras que se curam, como a de Bartimeu. Mas há cegueiras que resistem teimosamente à luz, porque a luz de Deus é cada vez mais ampla, mais gratuita e mais desestabilizadora do que as nossas categorias estejam dispostas a admitir.

A cura que Deus oferece é infinita e gratuita: não responda à lógica do mérito, da ordem social, de quem tem direito a ser escutado. Precisamente por isso, a tentação de fazer calar quem grita à beira do caminho – o pobre, o jovem em crise, quem faz perguntas incómodas à nossa rotina consolidada – está sempre à espreita mesmo nas nossas comunidades.

Reconhecer esta teimosia em nós, não é motivo de desânimo, mas o início de um caminho novo e libertador. Que a franqueza de Bartimeu seja para nós um dom, que o seu grito seja “acolhido” no nosso coração, não só uma vez, mas como grito permanente de quem sabe que a sua visão precisa sempre de ser purificada pela graça. Só então, como Bartimeu, poderemos verdadeiramente “seguir Jesus pelo caminho” (v. 52): verdadeiros e autênticos discípulos, não já espectadores curados, mas seguidores que aprenderam a ver aquilo que conta.

Imagem: “Jesus cura o cego de Jericó”, Eustache Le Sueur, Galeria Sanssouci (1645)

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