Apresentação do Lema do Reitor-Mor para 2026

“Fazei tudo O QUE ele vos disser”
Crentes, livres para servir

Caríssimos irmãos,
Filhas de Maria Auxiliadora, todos os membros da Família Salesiana, jovens,

a apresentação do LEMA oferece todos os anos a oportunidade de todos os Grupos da Família Salesiana se reunirem à volta de um tema específico, para partilhar e viver momentos intensos de oração e de reflexão, de escuta e de fraternidade. É um desejo e uma esperança que cada grupo e os seus membros possam encontrar alimento para o caminho e apoio para a sua vivência educativo-pastoral e pessoal.

Introdução

O LEMA que nos acompanhou no ano passado, construído em sintonia com o tema jubilar da esperança, ofereceu-nos a oportunidade de olhar para o mistério de Cristo como fonte de luz que nos ajuda a contemplar as maravilhas de Deus no momento presente. Vivenciámos momentos que nos fortaleceram na fé naquilo que o Senhor ainda tem para nos revelar, e entendemos a esperança como força do “” e coragem do “ainda não”. Também contemplámos como a força da esperança ajudou e sustentou Dom Bosco no seu caminho de descoberta e na concretização do projeto de Deus.

Há 150 anos a esperança foi o motor do coração pastoral de Dom Bosco, um coração capaz de ler os sinais dos tempos e de contemplar o mundo apoiado na fé em Deus. A comemoração dos cento e cinquenta anos da primeira expedição missionária salesiana não pretende ser uma celebração confinada a um momento cronológico. Ao recordar esse momento histórico, contemplámos como o Espírito de Deus encontrou, em Dom Bosco, um coração aberto e disponível. A resposta de Dom Bosco soube superar uma visão restrita e autorreferencial da vida.

Dom Bosco vivia em Turim, mas o seu coração e a sua mente pertenciam ao mundo inteiro. A sua esperança fundamentava-se na certeza de que – uma vez descoberto o projeto de Deus – não há outro caminho senão seguir a vontade de Deus até o fim. Contemplando a virtude teologal da esperança que animava a sua vida, pudemos vislumbrar aquilo que os seus primeiros discípulos já sentiam e mais tarde comentaram: Dom Bosco homem de fé, Dom Bosco crente, “Dom Bosco com Deus”.

Este ano gostaria de propor como lema o tema da . Ele surgiu de forma gradual, mas clara, quando, no início de junho de 2025, os vários Grupos da Família Salesiana se reuniram para a Consulta Mundial. As reflexões partilhadas indicavam o tema da fé: não apenas como uma continuação natural da esperança, mas como o “fundamento” da própria esperança. Se a força da esperança se apoia na fé, uma vida verdadeiramente cheia de esperança remete para uma relação de fé mais profunda e autêntica com Jesus, o Filho do Pai, que se fez homem por nós, e continua presente entre nós com a força do Espírito. Será, portanto, como uma peregrinação na fé de toda a Família Salesiana: juntos para nos renovarmos, juntos para vivermos no mundo como cristãos (e salesianos).

Na primeira Carta Encíclica Lumen fidei1 o Papa Francisco oferece sobre esta temática alguns pontos muito pertinentes. Em primeiro lugar, como introdução geral ao tema da fé, o Papa convida-nos à correção do olhar: a fé não é algo teologicamente distante, mas “uma luz a redescobrir”. Crer, viver pela fé significa querer caminhar na luz. A fé é, portanto, o fundamento que temos e o caminho que empreendemos porque realmente queremos viver a vida de maneira bela e sadia. Abraçar a fé expressa esse desejo profundo de viver na luz, recusando viver na escuridão, no vazio, no sem-sentido. O Papa Francisco explica que este chamamento a “recuperar o seu carácter de luz” é o que nós queremos percorrer porque “quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. De facto, a luz da fé possui um carácter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem” (n .4).

Este primeiro convite interpela-nos diretamente quando reconhecemos que a nossa missão é educar para a fé e na fé. O desafio que surge, então, é muito evidente: como podemos fazê-lo se essa fonte de luz em mim se for apagando? Como podemos permanecer tranquilos quando percebemos que o apagar-se da luz no nosso coração significa, a longo prazo, deixar os jovens e todos aqueles que acompanhamos nas trevas mais densas?

Além disso, essa luz possui algumas características que urge nomear. São características que surgem como pontos de apoio necessários nos momentos duros e difíceis no caminho da fé.

Antes de mais, pela sua potência, a luz da fé “não pode dimanar de nós mesmos, (mas) tem de vir de uma fonte mais originária, deve porvir em última análise de Deus” (n. 4). Na verdade, não se trata apenas de oferecer coisas humanas, inteligentes e profissionais, mas de algo muito maior. Essa luz, então, não é nossa; ela foi-nos dada.

Há um segundo aspeto, fruto da extraordinária gratuidade divina, e o Papa Francisco descreve-o de forma profunda e terna: “A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual nos podemos apoiar para construir solidamente a vida”. A fé não é um produto. Nasce, não tanto “do encontro com Deus”, mas “no encontro com Deus”. Um encontro que deve ser vivido como expressão de plena liberdade e como fonte contínua que nos alimenta com a sua luz.

Esta breve introdução já estabelece as bases necessárias para situar o tema da fé no interior de uma dinâmica relacional. Uma dinâmica típica do nosso carisma salesiano. A vivência da fé no encontro com Jesus, Filho de Deus, emerge como a espinha dorsal das nossas ações pela força do seu Espírito. Através dessa energia trinitária, somos os primeiros beneficiários daquele dom que dá forma e significado a tudo o que somos e, consequentemente, a tudo o que fazemos e propomos para a salvação dos jovens.

“FAZEI TUDO O QUE ELE VOS DISSER”
Crentes, livres para servir

Deixemo-nos guiar, ao longo deste ano, por uma frase do Evangelho segundo São João pronunciada por Maria logo no início do mesmo. Naquela que deveria ser uma bela festa de casamento surge uma dificuldade: falta o vinho. Diante da possibilidade de a festa se tornar um fracasso, encontramos a reação que sai do coração de Maria: é preciso intervir. E o que Maria faz é simplesmente apresentar a situação real a Jesus. Mas a hora de Jesus ainda não tinha chegado. Maria, a mãe atenciosa, com grande serenidade, convida os servos a prestar atenção, somente, ao que Jesus lhes dirá no momento da “sua hora”.

Proponho, este ano, que aceitemos o convite de Maria com a mesma atitude de disponibilidade e de liberdade que vemos nos servos. Nós também, membros dos vários Grupos da Família Salesiana, devemos recordar a verdade da nossa opção de vida e identidade: somos servos, apenas servos. E hoje Maria também nos diz: “Fazei o que Ele vos disser”. Seja o que for que Jesus nos diga, devemos, simplesmente, acolhê-lo, assumi-lo e vivê-lo, sem condições.

Convido-vos, queridas irmãs e queridos irmãos, depois de termos vivido a força da esperança, aquela “esperança que não engana”, a permitir que as palavras de Maria cheguem ao nosso coração, e a dirigir o nosso olhar e a nossa escuta a Jesus, ao que Ele nos vai dizer, na consciência e na alegria de sermos servos.

Queremos ser sustentados pela mesma fé ao encher as ânforas até cima, a levar a água transformada em vinho às realidades quotidianas que habitamos e partilhamos com todos. Como muitos de nós nos vemos na linha da frente, em situações difíceis e em locais críticos, reconhecemos o risco de uma fé frágil, às vezes até ausente, com as dramáticas consequências que, então, constatamos: a incapacidade de partilhar o “vinho” da bondade, da empatia e do amor.

Evangelho segundo São João 2, 1-11

1Ao terceiro dia houve um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus. 2Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento. 3A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». 4Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». 5Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». 6Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, e cada uma levava duas ou três medidas. 7Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. 9Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo 10e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora». 11Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele.

Entremos no cerne do trecho que inspirou o título do LEMA, com a meditação do primeiro “sinal” que Jesus realiza em Caná da Galileia, conforme o relato de João (2,1-11).

Três breves reflexões introdutórias oferecem-nos a chave “hermenêutica” que torna o trecho significativo para a nossa experiência pessoal e comunitária.

a. O primeiro sinal de Jesus é um ‘portal de entrada’

Numa das suas audiências o Papa Francisco comenta este trecho com uma imagem muito concreta. Diz que o primeiro sinal de Jesus é “uma espécie de ‘portal de entrada’, no qual são esculpidas palavras e expressões que iluminam o inteiro mistério de Cristo e abrem o coração dos discípulos à fé”2. O primeiro sinal de Jesus não é um espetáculo para admirar; é, antes, um convite dirigido ao coração de cada crente. Nele encontramos um apelo às atitudes que garantem a aceitação da proposta da fé, tal como é evocado no final do trecho: “os discípulos acreditaram n’Ele” (v.11). Esse primeiro sinal, em Caná, vai imediatamente ao centro da mensagem de Jesus: o convite a apostar a nossa existência na sua Palavra. “Caná” é, hoje, a casa onde habitamos, a obra onde vivemos a nossa missão, o grupo de jovens, de professores, de pais que acompanhamos. Nós somos os servos e os discípulos das várias experiências concretas e quotidianas.

Como em Caná, Maria continua, ainda hoje, a ter uma missão fundamental e fundante nesse processo. É ela que, ao caminhar connosco, nos convida a dar o passo da fé, uma fé assumida livremente para podermos ser servos autênticos. Esse processo, feito de fé, liberdade e serviço, é o mesmo vivido por Dom Bosco ao longo da sua vida. Também Dom Bosco, desde o sonho dos 9 anos, reconhece Maria como Mãe e Mestra que o sustentava na sua fé, que lhe deu coragem para ser um servo livre para os jovens no campo por Ela indicado.

b. A irrupção definitiva de Deus na história

Um segundo ponto de reflexão é oferecido pelo Papa Bento XVI, a partir das palavras que introduzem este primeiro sinal: “No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galileia” (v. 1).

No seu livro Jesus de Nazaré o Papa Bento diz que nesse momento nos encontramos no coração do mistério de Deus que se manifesta. A indicação temporal é um símbolo de toda a ação de Deus na história. O “terceiro dia” comunica a antecipação do cumprimento da história da salvação, que acontece na ressurreição de Cristo, no terceiro dia. Temos, neste exato momento, diz o Papa, “a irrupção definitiva de Deus sobre a terra”3. Caná é um lugar que contém, de maneira humilde e oculta, o cumprimento do projeto do amor de Deus pela humanidade. Caná é qualquer lugar para onde somos enviados, enquanto espaço onde Deus continua a fazer-se presente através daqueles que escutam a sua Palavra, creem nela e nela vivem.

Esta reflexão tem um alcance realmente significativo para nós. Se “Caná” é qualquer lugar onde habitamos, então é a nós que o Senhor chama para sermos sinais e portadores do seu amor pelos jovens, pela humanidade. Certamente não depende de nós a “irrupção de Deus sobre a terra”, mas é a nós que nos é dada a oportunidade de facilitá-la como dom recebido gratuitamente e livremente acolhido. Cada uma das nossas ações, vividas de forma generosa, participa desse desígnio de Deus… mas também cada uma das nossas resistências ou recusas corre o risco de negar esse “bom vinho” aos outros.

c. Jesus inaugura uma relação de amor, uma aliança de bondade e abundância

Um terceiro ponto introdutório, ainda retirado do Papa Bento XVI: o ambiente da festa “nupcial” é a dimensão mais adequada para compreender a relação de Deus com a humanidade, expressão suprema da aliança nupcial por excelência4.

Na verdade, percebemos que Jesus não vem, simplesmente, para nos deixar uma mensagem. Mediante este primeiro sinal, o que Jesus está prestes a inaugurar é uma relação de amor, uma aliança de bondade e abundância. Jesus convida-nos a entrar numa relação viva e vivificante. Com Ele habitamos um espaço sagrado onde, antes de tudo, descobrimos que somos amados. Nessa relação de amor somos positivamente desafiados e encorajados a segui-Lo.

Reconhecendo que estamos sempre à procura daquele “vinho bom” que nunca se esgota, o caminho a percorrer é apenas um, aquele que é indicado por Maria: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. A festa nupcial, por um lado, inaugura uma nova realidade e, por outro, sela a nova e eterna aliança.

Podemos dizer que a experiência de Caná é um verdadeiro “seio” onde a fidelidade de Deus se encontra connosco, completando e levando à plenitude a busca de amor por parte do ser humano. Isto significa que, quando chega a hora, responde-se à proposta de Jesus obedecendo (ob-audire) com a escuta da fé, vivida fielmente.

O banquete torna-se, assim, o altar que distribui abundantemente o vinho novo da Palavra. Uma distribuição generosa, fruto da fé vivida com liberdade. Seguindo o convite de Maria, a vida iluminada pela Palavra de Jesus é vivida na forma de serviço para o bem de todos, com plena disponibilidade do coração.

À luz do trecho das bodas de Caná, são vários os desafios que o LEMA 2026 nos apresenta. Estou convencido de que o chamamento que cada Grupo da Família Salesiana sente, de viver mais plenamente o próprio carisma, encontra, neste trecho do Evangelho, novos estímulos para ser vivido em favor dos jovens e de todos aqueles que partilham a missão salesiana. E não só, mas também para servir tantas pessoas, em várias partes do mundo, às quais o Senhor pede que levem o vinho da esperança e a alegria da comunhão.

1. VER – O acolhimento dos sinais dos tempos

Um primeiro chamamento que vos convido a acolher e a refletir é a atitude de Maria: a mulher atenta ao que estava a acontecer à sua volta. O Evangelho diz-nos, simplesmente, que “Ao terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá.”(v.1). O Evangelho não dá outras informações. Mas quando ouvimos essas poucas palavras e as relacionamos com a sua reação, começamos a vislumbrar alguns elementos significativos do coração de Maria.

a. Maria não era uma hóspede “neutra”

A sua presença era vivaz e atenta a tudo o que acontecia ao seu redor. Em termos figurados, mas cheios de significado, podemos dizer que Maria abraçou o tempo e a história daqueles que a receberam, como convidada, na festa do seu casamento. Maria podia sentir-se, simplesmente, como alguém que não devia interferir, embora pressentisse a triste consequência da falta de vinho. E, ainda assim, escolheu não ficar indiferente.

Aqui está um primeiro aspeto sobre o qual nós, como seguidores de Jesus, somos chamados a interrogar-nos: em que medida nos sentimos interpelados pelos acontecimentos da história que estamos a viver e nos lugares que habitamos? Que posição assumimos naquelas circunstâncias em que até poderíamos permanecer à distância porque, a respeito de certas coisas, “não é comigo”, “não é minha responsabilidade”? À luz do que Maria fez, diante dos desafios que nos cercam, sentimo-nos profunda e pessoalmente interpelados. Na cultura do anonimato e da indiferença, reconhecemos que também nós corremos o risco de tomar decisões pautadas pelo “politicamente correto”!

Abraçar o tempo e a história como atitude existencial implica certas exigências que só podemos perceber e assumir à luz da fé em Cristo.

No campo educativo-pastoral, a opção de Maria é para nós um chamamento, ao mesmo tempo forte e gentil, a não cair naquela indiferença que não apenas justifica as coisas, mas também as favorece passiva e indiretamente. Quantas vezes encontramos até mesmo pessoas ditas “de igreja” que, diante do drama dos refugiados, dos pobres, dos vulneráveis, se retraem em favor do seu bem-estar, considerando-os, apenas, como um incómodo ou algo descartável?

b. Os desafios e as dificuldades devem ser reconhecidos e enfrentados, não postos de lado

Assim procedeu Maria em Caná. Quantas vezes nos acontece, perante situações imprevistas de desconforto, em vez de enfrentá-las com a força da serenidade e da paixão apostólica, afastamo-nos delas, justificando-nos com demasiada facilidade! O perigo é que, gradualmente, essa inércia pastoral possa tornar-se “cultura”, também entre nós. Esperamos − e pedimos com veemência − que os outros façam a sua parte, talvez atribuindo-lhes a culpa, e assim acreditamos que conseguimos anestesiar a nossa consciência, fingindo crer que não temos nada a oferecer, ou que não somos chamados a intervir.

Quando o pobre bate à porta não nos é lícito fazer de conta que não o vemos. Para o nosso pai e mestre, Dom Bosco, a resposta não vinha de cálculos sobre os meios, mas da disponibilidade do coração, que estava em sintonia com os jovens do seu tempo. Desde o início, ele foi movido pelo desejo de entrar em contacto com eles, pobres e necessitados como eram. Assim, prestemos muita atenção para não nos deixarmos levar pela perspetiva de uma vida consagrada e pastoral fortemente condicionada por uma mentalidade burguesa e seletiva. O pobre não é escolhido por nós, mas é-nos enviado pela Providência. Acolher os jovens pobres e fazer o possível por eles é um chamamento que devemos levar a sério.

c. A história é o tesouro revelador da ação de Deus

Um terceiro ponto que tiramos da ação de Maria é a consciência de que, quando os momentos breves e humildes são vividos com generosidade, a história torna-se um tesouro que revela a ação de Deus. Uma simples atenção materna, um convite diligente aos servos, preparam o terreno para a hora de Jesus, para o seu primeiro sinal. Como o Senhor nos surpreende quando prestamos atenção aos detalhes da existência humana, especialmente quando estamos com os pobres e os necessitados! Quantas vidas experimentaram o bálsamo da misericórdia de Deus mediante os gestos de atenção de educadores e educadoras que, com bondade maternal, ofereceram um sorriso, uma palavra de encorajamento, em vez de olhares de condenação ou palavras humilhantes!

Toda a experiência de Dom Bosco diz que “o pátio”, tanto o físico quanto o metafórico, é o lugar onde se revela a bondade de Deus. Comunicamos a ternura vivendo-a de forma serena quando estamos presentes entre e para os jovens, que, assim, se sentem reconhecidos, valorizados e amados. A partilha constrói-se nas relações com os nossos colaboradores e colaboradoras, quando eles nos pedem aqueles “cinco minutos” de escuta. A sabedoria pastoral e educativa passa pela quotidianidade dos gestos, vividos com um coração aberto, disponível, atento e cheio de afeto.

Vale a pena partilhar aqui uma reflexão, mais atual do que nunca, oferecida pelo salesiano Dominic Veliath sobre o contexto da Ásia Sul. Ele escreve:

5O carisma salesiano ainda está em peregrinação. E qualquer peregrinação envolve uma certa dose de risco; às vezes é preciso enfrentar o desafio de aventurar-se por um caminho que pode parecer ainda inexplorado. É nesse contexto que todos os Salesianos, inclusive aqueles do contexto da Ásia Sul, confiantes na presença constante do Espírito de Deus, enraizados no carisma salesiano e em comunhão fraterna com toda a Congregação salesiana, são chamados a continuar o próprio caminho com um pouco daquela confiança que o poeta Antonio Machado descreveu de modo perspicaz no seu poema Caminante no hay Camino: “Caminhante, não existe o caminho; o caminho faz-se caminhando”.6

Maria, a mulher atenta ao que estava a acontecer à sua volta, convida-nos a não ficar distantes e indiferentes às necessidades daqueles que o Senhor nos pede para acompanhar.

Convite à reflexão
  • Como Comunidades e Grupos, perguntemo-nos se temos espaços e momentos em que, juntos, refletimos sobre as pobrezas que nos rodeiam.
  • Perguntemo-nos se o nosso estilo de vida é, realmente, um testemunho autêntico para aqueles que nos conhecem, para aqueles a quem servimos, às vezes verdadeiros pobres na alma e no corpo.
  • Perguntemo-nos se os pobres são números e objetos de ideologia e estratégia pastoral, ou se somos para eles servos com os meios que temos. Quão generosos somos com os nossos “cinco pães e dois peixes”?

2. ESCUTAR – Enraizados na fé em Cristo

Maria, atenta ao que acontecia à sua volta, diz aos servos: “fazei tudo o que Ele vos disser” (v. 5). O convite é claro e simples. Contudo, bem sabemos que também é muito exigente. Não se trata, apenas, de reconhecer os acontecimentos com as suas urgências e necessidades, mas de interpretá-los à luz da fé em Cristo. Na maior parte das vezes, fazemos uma boa leitura dos factos, de forma profissional e competente, com análises, geralmente bem desenvolvidas e precisas, num nível, por assim dizer, “horizontal”. Mas para nós, que seguimos Jesus, esse nível, que nunca deve faltar, precisa de ser totalmente acompanhado pelo nível “vertical”. É muito fácil que, ao responder às várias emergências, tomemos o caminho de uma atividade frenética em favor dos pobres e necessitados e acabemos, a longo prazo, sugados por um abismo de ativismo que não nos deixa tempo para olhar o rosto daqueles que queremos servir, nem o rosto d’Aquele que nos chamou a servi-los em seu nome!

a. Os eventos devem ser lidos e vividos à luz de Cristo

Maria solicita uma resposta que, certamente, correspondia àquela dificuldade inesperada, mas com uma indicação bem clara: “fazei tudo o que (Ele) vos disser”. O acento principal não está no que se deve fazer, mas em Quem diz o que se deve fazer! Os acontecimentos devem ser lidos e enfrentados à luz de Cristo. Trata-se de uma indicação irrenunciável, assim como uma fonte de verdadeira energia para quem crê. Existem diferentes maneiras de responder às pobrezas. O crente opta por esta: agir a partir da Palavra de Jesus. Para o crente em Cristo vale o que muitos santos da caridade transmitiram com a sua vida e o seu testemunho. O nosso próprio pai, Dom Bosco, também o transmitiu de forma clara: agir em nome de Jesus.

É de grande relevância para nós o que os primeiros Salesianos conservaram na memória sobre a figura de Dom Bosco, sobretudo nos seus aspetos mais profundamente espirituais e místicos. Num artigo das Constituições Salesianas, o artigo 10, que abre a secção sobre o espírito salesiano, encontramos a síntese dessa vocação que Dom Bosco viveu de maneira autêntica:

Artigo 10:
Dom Bosco, sob a inspiração de Deus, viveu e transmitiu-nos um estilo original de vida e de ação: o espírito salesiano.
Centro e síntese desse espírito é a caridade pastoral, caracterizada por aquele dinamismo juvenil que tão fortemente se revelava no nosso Fundador e nas origens da nossa Sociedade: é um ardor apostólico que nos faz buscar as almas e servir, somente, a Deus.

b. A vontade de Deus emerge dos eventos que vivemos

Nessa dinâmica, enraizada em Cristo, surge uma experiência que progressivamente nos faz desvendar o plano de Deus. A vontade de Deus emerge de dentro da nossa colaboração, nos acontecimentos que vivemos n’Ele e por causa d’Ele. E quando, com sinceridade, vivemos e agimos a partir do seu olhar, o Senhor da vida sempre nos surpreende da maneira mais inesperada. Crer, então, não é uma opção que garante sucesso e triunfos; crer é entregar-se nas suas mãos, é crescer na certeza segura que provém de um coração guiado pela Providência Divina. Se, em vez dessa opção radical, prevalecer a lógica do cálculo, então tudo tomará outra direção cujo destino desconhecemos. Maria permanece como guia de uma confiança total e confiável. Assim foi, assim continua a ser.

No episódio evangélico sobre o qual estamos a meditar, não encontramos, de facto, nenhuma palavra de dúvida ou de desconfiança, nem mesmo de resignação, por parte dos servos, apenas gestos de confiança, plena e total:

Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, e cada uma levava duas ou três medidas. Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. (v. 5-8).

Estes são versículos que comunicam, no total silêncio dos protagonistas, uma disponibilidade, uma prontidão e uma generosidade que podem até causar um pouco de perplexidade. Mas não! É a reação de quem decide apostar na Palavra escutada. É a postura de quem realmente crê. É a escolha de quem não fica ali a fazer perguntas ou, pior ainda, a impor condições. Eis o servo fiel!

c. Um processo nutrido e iluminado pela Palavra

Por fim, colhamos um dado que nós, crentes, não podemos perder: este é um processo que se sustenta por ser continuamente nutrido e iluminado pela Palavra. Interpretar tudo à luz de Deus e contemplar a sua vontade nos acontecimentos que se revelam diante de nós não é algo automático. Exige um coração em sintonia com o poder da Palavra. Esta é uma necessidade que, numa cultura como a nossa – onde a eficiência se sobrepõe à eficácia e onde o resultado é considerado mais importante do que o processo – corremos, continuamente, o risco de subestimar, passando diretamente para a ação, mesmo com as melhores intenções. A consequência é que o ponto de referência – a Palavra meditada e contemplada – torna-se cada vez mais fraco e, a longo prazo, chega a ser considerado mesmo como tempo perdido.

Quantas vezes ouvimos, até mesmo nas nossas comunidades religiosas, que não temos tempo para a meditação porque estamos muito ocupados com trabalhos pastorais? E quanto maiores se tornam esses trabalhos, mais abandonamos a amizade com a Palavra. O resultado, infelizmente, é a autoreferencialidade pastoral que se reforça em nome da ação e dos trabalhos pastorais. Correspondendo àquilo que o Papa Francisco chamou certa vez de “mundanidade espiritual”, corremos um risco muito semelhante: o beco sem saída da “mundanidade pastoral”. Ou seja, trabalhamos com grande empenho na obra de Deus, mas, com o tempo, esquecemo-nos daquele Deus que, inicialmente, nos chamou para servi-Lo. Que tragédia quando, crendo servir a Deus nos pobres, acabamos por justificar a sua própria irrelevância. Acabamos por elevar a ídolos os nossos próprios projetos pastorais!

Gostaria de oferecer, aqui, uma reflexão sobre a força e a centralidade da Palavra vivida por uma santa da caridade: Madre Teresa de Calcutá. Ela escreve às suas consagradas palavras que também valem para nós hoje:

Preocupa-me pensar que algumas dentre vós ainda não encontraram Jesus face a face, sozinhas, a sós. Podeis até mesmo passar algum tempo na capela, mas já vistes com os olhos da alma o amor com que Ele olha para vós? Conheceis realmente o Jesus vivo: não pelos livros, mas por estar com Ele no vosso coração? Já ouvistes as palavras de amor que Ele vos dirige?… Jamais abandoneis esse contacto íntimo e quotidiano com Jesus como pessoa viva e real e não como mera ideia. Como poderíamos passar um único dia sem sentir Jesus a dizer-nos: eu amo-te? É impossível. A nossa alma precisa disto tanto quanto o nosso corpo precisa de respirar. Caso contrário, a oração morre e a meditação degenera em reflexão. Jesus quer que cada uma de nós O ouça e Lhe fale no silêncio do coração. Vigiai sobre tudo aquilo que poderia impedir esse contacto pessoal com o Jesus vivo.7

O caloroso convite de Santa Teresa de Calcutá dirige-se a todos os que desejam fazer da fé a fonte da própria identidade e das suas ações. Ser crentes coloca-nos no coração da história para que, como protagonistas, acolhamos e vivamos a história e na história, à luz de Cristo. Só assim − alimentados e nutridos com o alimento da Palavra − poderemos constatar, admirados, como a vontade de Deus surge mais clara diante dos nossos olhos.

Convite à reflexão
  • Reconhecemos como é difícil responder às necessidades dos pobres e oferecer processos educativos e pastorais sem uma prévia leitura humana e, ao mesmo tempo, espiritual da situação?
  • Como Comunidade e Grupos, reconhecemos a urgência da coragem de “perder” tempo para refletir e rezar antes de agir? O valor das propostas reside, de facto, nas raízes que alimentam a árvore para que ela dê frutos bons e duradouros.
  • Já nos demos conta que servir os pobres é consequência do nosso encontro com Cristo, por que são eles próprios que nos conduzem a Ele para que os sirvamos ainda mais?
  • Percebemos, constantemente, que o perigo da “mundanidade pastoral” acaba por alimentar o nosso ego, com a consequência de que, em vez de servir os pobres, terminamos por nos servir dos pobres?

3. ESCOLHER – Viver o chamamento com liberdade

O relato do “sinal” de Caná oferece novos elementos que iluminam mais a nossa experiência de fé vivida, servindo como guia e incentivo para os nossos itinerários educativo-pastorais. Os servos ouvem, acolhem e obedecem, como Maria lhes pedira que fizessem. As atitudes e opções deles são como a realização de outra declaração de Jesus, quando − no episódio lucano da “mulher [que] levantou a voz no meio da multidão e lhe disse: «Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram!»” − Ele responde: “Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11, 27-28).

Este é o ponto de viragem. É importante e decisivo sentir-se parte da história da humanidade, acolhendo e “lendo” os sinais dos tempos; é absolutamente necessário estar enraizado na fé em Cristo. Mas a verdade desses dois comportamentos manifesta-se no seu expoente máximo quando se acolhe e vive a Palavra. Surge, então, o itinerário de uma fé autêntica, marcada por um crescimento saudável e sólido.

a. A escuta livre com uma confiança completa

O momento da viragem é marcado por essa escuta livre, pautada por uma confiança completa. As frases do Evangelho têm uma carga muito forte e um significado sempre atual.

Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. (v.7-8).

Quando alguém confia em Jesus, não há espaço para mais nada. Pelo contrário, a disponibilidade humana torna-se ainda mais plena e alegre, mais pronta e generosa. O autor do Evangelho oferece um detalhe que, como educadores e pastores, não podemos deixar de notar: “encheram (as talhas) até acima” (v.7). Até cima, além da já grande quantidade de litros das talhas. Vale a pena ser generoso, sempre, com uma generosidade “transbordante”. Quando Jesus chama, procede-se assim, obedecendo – ob-audire – com liberdade e sem medida, uma e outra vez, como sugere o trecho seguinte do Evangelho: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. (v. 8).

Creio que muitos de nós, na nossa vida, quando éramos crianças e jovens, e creio que também na fase adulta, tivemos a alegria de encontrar pessoas que nos lembraram a generosidade desses servos. Pessoas que ainda trazemos no coração e na memória, não tanto pelas coisas que fizeram, mas pela atitude livre e generosa que nos transmitiram. Essas pessoas marcaram-nos, certamente, porque o seu coração era habitado pela presença de Jesus, tinham um coração iluminado e guiado pela Palavra e nutrido pela Eucaristia.

b. Qualquer ação tem sentido – logos
– somente na e a partir da Palavra – Logos

Nos servos do episódio de Caná compreendemos aquilo que hoje nos é pedido, se realmente quisermos oferecer uma experiência de crescimento integral àqueles a quem somos chamados a servir. Seremos educadores e pastores autênticos somente na medida em que cada ação nossa buscar sentido (razão, motivo, logos) na e a partir da Palavra (Logos). Somente numa prática de vida entrelaçada de palavras e ações, que se deixam contagiar pela Palavra, poderemos ir além do muro da indiferença e da apatia, tão difundidos hoje. Quando vemos que falta o vinho da esperança e da verdadeira alegria, quando nos sentimos impotentes diante de tantos desafios reais que encontramos todos os dias, a tentação é defender-nos mantendo a distância e fazendo o mínimo.

Contudo, há outra opção, que é evangélica e salesiana: “abandonar-se” e “entregar-se” à sua Palavra… Como testemunharam os servos, como testemunharam Dom Bosco e tantos membros da Familia Salesiana conhecidos, com as suas opções concretas, sempre precedidas de uma precisa e sistemática atenção às fontes da própria vida. Tudo emana desse espaço profundo e sagrado. Foram discípulos e servos que, da sua vida para e com os outros, fizeram uma experiência que prolongava a sua relação com Jesus, vivida com a força da sua Palavra. Não era devocionismo abstrato nem pietismo emotivo, mas expressão e síntese de maturidade humana e espiritual, de visão inteligente e sábia, de empatia humana e impulso místico. No ob-audire vivido com uma personalidade forte e determinada não vemos sinais de fraqueza ou de resignação passiva. Podemos dizer que viveram o seu protagonismo dentro de um quadro relacional marcado pela graça de unidade, um quadro existencial profundamente humano e profundamente divino. Obedecendo, jamais renunciaram à sua personalidade; antes, moldaram-na através dela. A sua confiança na palavra de Jesus, como a dos servos, continua a oferecer-nos vinho novo que inaugura uma vida nova, para nós e para os nossos jovens.

c. O perigo de uma fé que se adapta à cultura dominante

Reconhecemos aqui o convite para não sucumbir ao perigo de uma fé que se adequa à cultura dominante. A dimensão profética da nossa missão deve confrontar-se com um contexto como o atual, que “puxa para baixo”, para o imediato, para o útil e vantajoso, para aquilo que gratifica aqui e agora, ou, no mínimo, para o mais cómodo. A palavra de Jesus aos servos poderia ser “administrada” e “tratada” de maneira puramente humana, com uma desconfiança mais do que plausível e “razoável”. O resultado teria sido muito diferente; podemos imaginá-lo facilmente. Quantas vezes, também hoje, acontece que – diante de desafios pastorais urgentes – prevalece o raciocínio humano. Uma leitura meramente horizontal, construída intencionalmente, acaba por tornar menos potente, e até excluir, uma leitura de fé dos desafios que somos chamados a enfrentar. Por um lado, sabemos que estudos e pesquisas sobre os jovens nos convidam a escutar a sua busca de sentido; por outro lado, porém – a essa consciência que exige uma resposta profética – nós limitamo-nos a dar uma resposta meramente horizontal ou, talvez, respondendo apenas a uma necessidade em vez de dar resposta à pergunta implícita de sentido.

Tem-se a impressão de que se, por vezes, projetamos os nossos medos nos jovens, é porque nos incomoda enfrentá-los e superá-los, tirando-nos da zona de conforto. Mantendo-nos no plano meramente humano e racional, ou na cultura dominante, sentimo-nos superficialmente justificados, enquanto os nossos jovens continuam a gritar no deserto.

Lendo a história dos primórdios em Valdocco, na casa Pinardi, a partir de 1847, vemos que Dom Bosco ofereceu experiências intensas e sólidas aos jovens. Ele procurava jovens pobres e sem teto para lhes dar o mínimo necessário: alimentação, alojamento, educação. Mas já desde o início Dom Bosco estava consciente de que era preciso oferecer propostas que hoje chamamos de “integrais”. Pietro Braido escreve:

Humilde nas origens, a primeira instituição de Dom Bosco crescia lentamente como o grão de mostarda do Evangelho.
Essa instituição, porém, existia graças a um agente de tal força interior, de fé humana e cristã tão sólida, de capacidade de envolvimento e irradiação tão acentuada, que acabava por oferecer de si imagens muito mais dilatadas do que a efetiva realidade. O mesmo aconteceria no futuro8. No entanto, ele não trabalhava só para a publicidade. Na ação de recuperação e de fortalecimento religioso, moral e também civil da juventude – sobretudo trabalhadora, os “pobres aprendizes” -, sabia recorrer igualmente a meios fortes, como os exercícios espirituais. Já em 1847 fizera a primeira experiência com os jovens do Oratório. A repetição de uma experiência semelhante, em 1848, foi confirmada pelo próprio Dom Bosco. Esta acolheu cerca de cinquenta participantes, com permanência diurna e noturna nos ambientes do Oratório, graças à total disponibilidade da casa Pinardi.9

Para que a nossa resposta seja cheia de fé na palavra de Jesus, é urgente aceitarmos esse convite com grande prontidão, tanto em relação Àquele que nos chama, quanto como resposta àqueles que estão à espera. A nossa hesitação, a nossa indecisão não devem ter a última palavra.

Convite à reflexão
  • Comprometamo-nos para que a nossa vida de fé tenha a forma de um relacionamento marcado pela liberdade e pelo abandono confiante.
  • Façamos um exame de consciência sobre as nossas motivações: se elas são enraizadas e nutridas pela Palavra (Logos), livres de motivações autorreferenciais.
  • Desenvolvamos a nossa capacidade intelectual sempre à luz da sabedoria de Deus. Que a nossa inteligência não apague nem atenue a voz profética da Boa Nova.

4. AGIR – Servir com total generosidade

O casamento de Caná foi uma “festa” enriquecida pela resposta confiante e generosa dos servos ao convite de Maria para fazerem aquilo que Jesus lhes dissesse para fazer. Quando o serviço é marcado pela dedicação generosa de cada um, uma generosidade enraizada na fé, os resultados são um dom para todos. Podemos constatá-lo nos vários processos educativo-pastorais conduzidos por pessoas dedicadas à missão, por colaboradores e colaboradoras que se sentem parte viva do carisma e do projeto pastoral salesiano. Dedicação e pertença que constituem uma verdadeira e real forma de acolher o chamamento e de o realizar, não um mero apêndice. No fundo, são essas opções fundamentais que dão alma a qualquer caminho de crescimento integral dos jovens. São opções que condicionam positivamente o seu desfecho.

a. Servir livremente porque estamos enraizados em Cristo

Não há liberdade mais autêntica e verdadeira do que aquela que emana da relação com Cristo. A alegria do servo, livre, provém de um coração que já encontrou o centro da própria identidade. O servo que se alimenta da fonte que é Cristo não tem intenções ou motivações alternativas. Vive bem o seu serviço sem precisar de depender da busca de gratificações pessoais vindas de fora. O seu coração já está cheio d’Aquele que o chamou e enviou, e isso chega e sobra.

A sua doação é, portanto, transparente, e por isso, comunica externamente aquele modo de viver em liberdade interior. Daí vem a verdadeira alegria que cada autêntico servo dos jovens traz consigo. Somos portadores do vinho bom, somos “sinais e portadores do amor de Deus aos jovens, especialmente os mais pobres” (Const. 2), não porque o tenhamos produzido nós, mas porque cremos que nos foi dado gratuitamente. A nós é pedido somente que não o conservemos como propriedade pessoal, mas que o distribuamos com generosidade. A alegria que comunicamos quando estamos enraizados em Cristo é uma alegria que nos é dada em abundância, mas com a promessa de que essa se torne plena ao partilhá-la. A promessa de Jesus na Última Ceia continua a sustentar-nos nesse serviço:

«Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. (Jo 15, 9-11)

Nestes meses do Jubileu do Ano Santo de 2025, muitos de nós viveram ou acompanharam, de perto, a experiência do Jubileu dos Jovens, entre o final de julho e o início de agosto. É impactante recordar, aqui, as palavras que São João Paulo II escreveu na sua Carta Apostólica, Novo Millennio Ineunte, no final do Ano Santo de 2000, onde encontramos um comentário sobre o Jubileu dos Jovens daquele ano. São palavras marcadas pela alegria. Parecem escritas para nós, hoje, que lidamos com jovens nascidos por volta daquele ano 2000:

Porventura não é Cristo o segredo da verdadeira liberdade e da alegria profunda do coração? Não é Cristo o maior amigo e, simultaneamente, o educador de toda a amizade autêntica? Se Cristo lhes for apresentado com o seu verdadeiro rosto, os jovens reconhecem-No como resposta convincente e conseguem acolher a sua mensagem, mesmo se exigente e marcada pela Cruz. Por isso, vibrando com o seu entusiasmo, não hesitei em pedir-lhes uma opção radical de fé e de vida, apontando-lhes uma missão estupenda: fazerem-se «sentinelas da manhã» (cf. Is 21,11-12) nesta aurora do novo milénio (NMI 9).10

Sim, os jovens ainda estão à procura de quem tem a coragem e a convicção da fé em Cristo. Não falta a procura por parte dos jovens. Precisamos de pessoas adultas na fé, prontas para apresentar o rosto de Jesus, como servos e peregrinos. Precisamos de educadores e pastores prontos para ouvir e viver a Boa Nova.

b. Cooperadores no projeto de Deus para os jovens

Através deste serviço, convicto e alegre, nós, educadores e pastores, tornamo-nos cooperadores no projeto de Deus para os jovens. Como Maria, também nós fizemos a opção de não nos distanciarmos do que está a acontecer à nossa volta. Escolhemos fazer parte da história dos jovens. Porque estamos convencidos de que esses jovens, hoje mais do que nunca, trazem no coração a pergunta: “Mestre, onde moras?”. Eles estão à procura d’Ele talvez até sem o saber. Não têm o vocabulário certo para o dizer, mas têm aquela sede profunda que não deixa o coração tranquilo. Se lhes falta a linguagem adequada, certamente não falta o coração inquieto.

Quão grande é a nossa responsabilidade, nós que encontramos Jesus, que frequentemente permanecemos com Jesus, todos os dias! Contudo, somente quando vivemos esse encontro com fidelidade e consistência conseguimos entender e compreender a pergunta silenciosa dos jovens. Nessa lógica, de um “silêncio que interpela de forma ensurdecedora”, os verdadeiros educadores e pastores comunicam, com o seu testemunho e a sua fidelidade, aquela centelha que sabe incendiar os corações. Foi-nos entregue o “talento” da Boa Nova. Ai de nós se o negligenciarmos, ou pior ainda, se o enterrarmos.

Na sua vida breve, mas intensa, Simone Weil (1909–1943) − filósofa, ativista política e mística francesa, uma mulher desesperadamente em busca − deixou uma marca profunda no pensamento filosófico francês do século XX. Num determinado período da sua vida, ela esteve em contacto com o padre dominicano Joseph-Marie Perrin. Dessa experiência ela escreve no seu diário:

Não é pela maneira como um homem fala de Deus, mas é pela maneira como ele fala das coisas terrenas que se pode discernir melhor se a sua alma habita no fogo do amor de Deus.11

É uma frase lapidar que se aplica perfeitamente aos nossos contextos educativo-pastorais. Na maior parte das vezes, os nossos encontros com os jovens e com todos os que o Senhor nos faz encontrar correspondem a um simples contacto humano, uma generosa disponibilidade para enfrentar as necessidades e temas imediatos. Entretanto, esse espaço de pura humanidade torna-se lugar de revelação do amor de Deus: nesses momentos ocupamos uma “terra sagrada” que não se deve pisar. Nos pátios do mundo, a nossa presença não é apenas física, mas leva consigo o que o nosso coração contém. Mesmo ao falar de “coisas terrenas”, sem nos apercebermos, comunicamos “quem” ou “o que” acolhemos e hospedamos no nosso coração.

Nesses momentos simples, a nossa presença, portadora de um coração sadio, facilita, de maneira surpreendente, a revelação do projeto de Deus para cada jovem que encontramos. Bem-aventurados nós se estivermos continuamente conscientes disso. Bem-aventurados os jovens que encontram estes servos crentes, generosos e cheios de alegria verdadeira e autêntica.

c. A audácia da fé

Enfim, não devemos ter nem medo nem vergonha: incentivemos, ao nível pessoal e comunitário, a audácia da fé. Não se trata de uma postura que desafia o mundo, muito menos de um fundamentalismo sem sentido. Trata-se, antes, de uma opção que nos enraíza em Cristo, e assim vamos ao encontro do mundo. Não se trata de confrontar, mas de promover espaços de fraternidade, fomentar a cultura do diálogo, viver relações marcadas pela compaixão e pela empatia.

Numa passagem da Encíclica Lumen fidei, o Papa Francisco detém-se sobre a potencialidade de uma fé que não visa conquistar, mas colaborar para o bem comum. Como portadores de um carisma que educa e evangeliza, a reflexão do Papa ilumina e exorta-nos a seguir em frente.

A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos. Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação dos interesses, o medo, mas não sobre a beleza de viverem juntos, nem sobre a alegria que a simples presença do outro pode gerar (n. 51).

O Papa recorda, também, que essa tomada de posição se torna um dom inestimável pelas suas consequências sociais. Esse apelo é crucial para nós, Grupos da Família Salesiana, porque nos alerta para o perigo de considerar “a fé” como “propriedade privada”, algo que possuímos em contraposição aos demais. Não é esse o sentido do chamamento. Recordando o contexto do casamento de Caná, o vinho é para todos, inclusive para aqueles que não fizeram bem as contas, inclusive para aqueles que entraram à socapa na festa e para os mendigos de passagem. A fé em Cristo, como o vinho novo, inaugura a festa da aliança. Eis as palavras do Papa Francisco:

A fé faz compreender a arquitetura das relações humanas, porque identifica o seu fundamento último e destino definitivo em Deus, no seu amor, e assim ilumina a arte da sua construção, tornando-se um serviço ao bem comum. Por isso, a fé é um bem para todos, um bem comum: a sua luz não ilumina apenas o âmbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade eterna no além, mas ajuda também a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro de esperança (n.51).

A ousadia da fé é uma confirmação de que queremos levar a sério o chamamento de sermos cooperadores no projeto de Deus para os jovens. Dom Bosco viveu esse chamamento com uma consciência extraordinária e transformou-o em sistema, projeto e experiência de família. Era uma audácia que o fez dizer (e viver): “Quando se trata do bem da juventude em perigo, ou de ganhar almas para Deus, eu avanço até à temeridade.12

Nós vivemos a audácia da fé para favorecer um futuro marcado pela esperança. A audácia da fé, com as raízes no coração do educador, do pastor – que nunca deixa de amar, de esperar, de cuidar do seu rebanho.

Convite à reflexão
  • Não tenhamos medo de interrogar-nos de forma íntima e sincera para saber se estamos realmente a servir os jovens ou se nos estamos a servir deles para a nossa própria agenda e interesses pessoais.
  • Sendo chamados como Comunidade a educar com o coração do bom pastor, esforcemo-nos por encontrar momentos que nos tornem mais conscientes de que a nossa presença e o nosso contributo estão ao serviço da descoberta do projeto de Deus para cada jovem.
  • Evocando a frase de Simone Weil, pergunto-me: a minha alma habita no fogo do amor de Deus? Se eu não moro na fornalha do amor de Deus, pouco importa onde está a alternativa, onde eu decido habitar!

150 anos – Salesianos Cooperadores: o sonho profético de Dom Bosco continua

Convido-vos a olhar para a ocorrência dos 150 anos de fundação dos Salesianos Cooperadores como uma experiência que prolonga a recomendação de Maria aos servos: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.

As reflexões feitas até aqui podem ver-se concretizadas no projeto que Dom Bosco amadureceu desde o início da sua missão em Valdocco.

  • O coração de Dom Bosco era um coração aberto para acolher os sinais dos tempos, com os seus desafios e oportunidades.
  • Houve, desde o início, um caminho enraizado na fé em Cristo, e a sua experiência pessoal tinha, unicamente, em Cristo o seu ponto de partida.
  • A proposta que foi amadurecendo tinha como objetivo oferecer aos jovens e aos seus primeiros colaboradores um chamamento a descobrir e a viver o projeto pessoal de vida com liberdade.
  • Num ambiente saudável e santo, onde a razão (sensatez) e a fé (religião) se alimentavam reciprocamente num contexto de bondade/amorevolezza, esse caminho tinha como único propósito servir os jovens com total generosidade e amá-los sem condições.

Nas últimas décadas tivemos várias ocasiões e momentos de reflexão que nos estão a ajudar a contemplar a experiência dos Salesianos Cooperadores à luz do carisma salesiano. Refiro-me a três fontes que, ao longo deste ano, podem nutrir muitos momentos de estudo e reflexão, como também de pesquisa em vista de novas e criativas propostas pastorais.

O Padre Pietro Braido dedica várias páginas aos Salesianos Cooperadores13. Aqui, quero apenas mencionar algumas ideias para uma visão de conjunto que nos ofereça uma memória projetada além do imediatismo histórico e temporal. Se fizermos verdadeira memória das opções de Dom Bosco, perceberemos que o tema do Lema 2026 está em plena sintonia com a sua ação, tendo ele sempre sido atento e obediente à direção do sopro do Espírito de Deus.

A ideia de Dom Bosco era criar uma verdadeira força missionária organizada, um “exército potencialmente ilimitado de pessoas, homens e mulheres”. A característica revolucionária era que esses membros compartilhariam a missão salesiana, permanecendo no mundo, sem a obrigação dos votos religiosos (pobreza, castidade, obediência) nem da vida comunitária típica dos religiosos. Eram chamados a viver uma fé “evangelizadora e civilizadora no seu contexto quotidiano”.

Desde o início do Oratório, Dom Bosco sempre pôde contar com a colaboração de padres e leigos. A verdadeira novidade estava em dar a essa colaboração uma forma oficial e estruturada: uma Associação ou União eclesial. Essa entidade seria formalmente “agregada” à Sociedade Salesiana, criando um vínculo espiritual e jurídico reconhecido.

A ideia não surgiu de repente. Já nas versões preliminares das Constituições Salesianas dos anos 60, Dom Bosco havia previsto um capítulo sobre os “Sócios Externos”. Embora essa proposta tenha sido inicialmente rejeitada pelas autoridades do Vaticano, Dom Bosco não desistiu. Ele queria transformar uma rede de apoios espontâneos e informais numa família espiritual reconhecida, com identidade clara e um papel ativo na missão salesiana.

Na Introdução de 1854 do Plano de Regulamento para o Oratório Masculino de São Francisco de Sales, Dom Bosco manifestava a esperança de que o regulamento pudesse “servir de norma (…) para administrar essa parte do sagrado ministério, e de guia às pessoas eclesiásticas e seculares que em bom número aí consagram as suas fadigas com caridosa solicitude”. De facto, gostava de recordar como era numeroso o grupo dos colaboradores eclesiásticos e leigos (Braido, Vol. 2, p. 164).

A visão original de Dom Bosco ainda nos interpela, porque nos convida a renovar, hoje, aquele mesmo espírito apostólico que ele sonhava como base e fundamento. Para Dom Bosco, a figura do Salesiano Cooperador era multifacetada, com identidade e missão bem definidas.

A sua identidade era a de um Salesiano no mundo: cristão (leigo, padre, homem ou mulher) que vive o espírito salesiano na própria condição de vida, na família e na sociedade. Não é um religioso, mas compartilha com os religiosos salesianos o mesmo coração e a mesma paixão pela salvação dos jovens.

A sua missão tinha um duplo propósito: a santificação pessoal (“fazer o bem a si mesmos”: ou seja, os Salesianos Cooperadores são chamados a viver uma vida cristã exemplar, num estilo de vida simples e virtuoso, quase como se estivessem “na Congregação”); e a salvação dos outros, a ação apostólica, com o objetivo de realizar um compromisso ativo pelo próximo, com especial atenção à “juventude periclitante”.

Dom Bosco, com grande pragmatismo, estabeleceu que quem não pudesse realizar essas obras diretamente (“por si”) ainda podia contribuir apoiando quem as fazia (“por meio de outros”). Esse princípio tornava a experiência acessível a todos, independentemente da idade, da saúde ou dos recursos económicos.

O Padre Egídio Viganò na sua carta A Associação dos Cooperadores Salesianos14, escrita por ocasião da promulgação solene do, então, novo Regulamento de vida apostólica da Associação dos Cooperadores Salesianos (1986), sublinhava que o novo Regulamento não era uma simples atualização normativa, mas um acontecimento de alcance histórico que completava a renovação pós-conciliar de toda a Família Salesiana. Escreve o Padre Egídio que “Dom Bosco não considerou concluída a sua longa e trabalhosa missão de Fundador enquanto não conseguiu dar uma estrutura válida e uma Carta de identidade própria a esta Associação”, e que esse processo de renovação está em continuidade com a experiência até ali vivida que “esteve presente, de certa maneira, e como semente, já desde o início do seu projeto em favor da Obra dos Oratórios”.

Acrescenta, ainda, que o carisma salesiano possui uma “vitalidade maleável”, que lhe permite adaptar-se aos tempos sem perder a própria essência. Dom Bosco partiu da intuição fundamental da missão juvenil e da urgência de ter colaboradores permanentes. Somente após mais de trinta anos de discernimento, de 1841 a 1876, conseguiu dar forma definitiva ao seu projeto, passando de uma dimensão diocesana a uma vocação universal.

O Padre Pascual Chávez, enfim, numa intervenção sobre O Cooperador na mente de Dom Bosco15, comenta “O Projeto de Vida Apostólica: caminho de fidelidade ao carisma de Dom Bosco” ressaltando a intuição original de Dom Bosco e recordando a célebre frase: “Eu sempre precisei de todos!”. Nesta expressão encontramos, sintetizada, de forma completa, a sua visão, que não se limita a ver os Cooperadores como simples auxiliares, mas, sim, como protagonistas essenciais de uma vasta rede de colaboração que, de facto, possibilitou a difusão mundial da obra salesiana.

O Padre Chávez escreve que a identidade do Cooperador, segundo Dom Bosco, se articula em três dimensões fundamentais: em primeiro lugar, é um cristão católico; em segundo, tem uma vocação secular; por fim, é Salesiano no mundo, evocando a mesma conferência de Dom Bosco, em 1885. Nessa conferência Dom Bosco disse:

O que quer dizer ser Cooperador salesiano? Ser Cooperador salesiano significa concorrer juntamente com outros no apoio a uma obra fundada sob os auspícios de São Francisco de Sales, cuja finalidade é ajudar a Santa Igreja nas suas necessidades mais urgentes; significa colaborar para promover uma obra tão recomendada pelo Santo Padre, porque educa os jovens na virtude, no caminho do Santuário, porque tem por principal objetivo instruir a juventude que hoje se tornou alvo dos maus, porque promove no meio do mundo, nos colégios, nos internatos, nos oratórios festivos, nas famílias, promovendo, digo, o amor à religião, os bons costumes, as orações, a frequência aos Sacramentos, e assim por diante.16

À luz desta visão de Dom Bosco, o Projeto de Vida Apostólica (PVA) traça o caminho para que o Salesiano Cooperador se torne uma testemunha autêntica do projeto de Deus, em favor do crescimento integral dos jovens. Esse caminho torna-se real quando os Salesianos Cooperadores se comprometem a:

  • garantir a identidade da Associação através de uma fidelidade dinâmica ao carisma original. Que o estudo e a reflexão sobre o carisma sejam fonte que nutre, continuamente, a compreensão e a vivência do chamamento;
  • fortalecer a unidade dos membros na sua diversidade. Que a riqueza das origens, a variedade dos dons de cada membro e a situação pessoal de cada um sejam uma oportunidade para criar espaços de convergência, partilha e habitar novos espaços de ação;
  • promover a vitalidade missionária de cada Cooperador. O chamamento a sentirmo-nos como Dom Bosco significa sermos guiados por um coração pronto “a sair”, um coração que se sente enviado, um coração missionário. Essa convicção supera o perigo de um isolamento que acaba por apagar o fogo do chamamento.

Juntamente com estas propostas do Padre Pascual Chávez, vale a pena reafirmar o seu convite a que não percamos a vitalidade que Dom Bosco transmitia e que hoje nos cabe a nós manter e fortalecer. O seu projeto ainda hoje demonstra o seu valor, na medida em que cada Salesiano Cooperador procura ser, antes de tudo, uma pessoa dedicada ao bem comum nos âmbitos político, social e humanitário. Nessa ótica, e em segundo lugar, a atenção privilegiada aos pobres e aos excluídos torna-se a força que impulsiona a ação pastoral. Em terceiro lugar, reafirma-se o compromisso para com uma comunidade de fé, sustentando a vitalidade da Igreja mediante um espírito de serviço autêntico, verdadeiro e desinteressado. Por fim, o convite à formação contínua, para que o testemunho, no seu conjunto e em qualquer lugar, seja nutrido por aquela espiritualidade laical que forma para a vida evangélica, uma vida portadora da Boa Nova, fermento na sociedade.

6. Algumas propostas pastorais

Nesta parte final ofereço algumas propostas pastorais que podem ser estudadas e discutidas nos diversos Grupos da Família Salesiana. São propostas que surgem das várias considerações até aqui expostas e intimamente ligadas à Palavra de Deus que nos acompanhou neste Lema 2026. O meu desejo, e o desejo de cada membro da Família Salesiana, é colocar sempre diante de nós a força e a luz da Palavra. Desta energia pedimos ao Espírito de Deus que nos conceda coragem e determinação para viver, com fé, a mensagem de Jesus, vivendo-a para levar o “vinho da esperança” aos jovens.

1. “Fazei tudo o que Ele vos disser”: para uma pedagogia da escuta pessoal

As palavras de Maria aos servos de Caná são oferecidas como um verdadeiro método educativo. Maria convida à escuta pessoal que nos leva do individualismo indiferente à autonomia responsável e solidária, do conformismo exterior estéril à conversão do coração.

  • Eduquemos os jovens para a escuta pessoal da Palavra de Deus em vista de uma fé adulta e consciente.
  • Promovamos o discernimento ao nível pessoal e comunitário, de grupos e de assembleias.

2. Maria em Caná: educadora da liberdade autêntica

Maria não obriga os servos, mas orienta-os para Aquele que pode transformar as suas vidas. É o modelo de cada autêntico educador na fé: não impor, mas propor; não obrigar, mas acompanhar; não substituir, mas capacitar.

  • Cresçamos como educadores e educadoras que ajudam os jovens a fazer as perguntas certas, evitando o perigo de oferecer respostas prontas.
  • Tornemo-nos conscientes de que a autoridade nasce do testemunho coerente e autêntico, não do autoritarismo sufocante.
  • Aceitemos que educar para a liberdade também significa prever o risco do “não”, de uma resposta negativa, de uma recusa, e que, em todo o caso, é sempre necessário respeitar as opções dos jovens ao longo de um caminho gradual de crescimento.

3. A arte de ler os sinais dos tempos com os jovens

Uma pastoral encarnada sabe ler a realidade juvenil, sem preconceitos nem nostalgia do passado. Os jovens vivem num mundo complexo, atravessado por desafios inéditos: a revolução digital, a incerteza do futuro, a crise das instituições tradicionais, as novas formas de pobreza existencial.

  • Escutemos de maneira empática: antes de julgar, procuremos compreender o mundo juvenil por dentro.
  • Façamos uma leitura sapiencial: vejamos nas mudanças culturais não só ameaças, mas também oportunidades para o anúncio.
  • Promovamos a conversação no Espírito: vivenciamos a “sinodalidade” de modo evidente quando envolvemos os próprios jovens na escuta recíproca, na análise da sua realidade e na formulação de novas propostas.
  • Com um olhar de fé, reconheçamos também a ação de Deus nas situações aparentemente mais distantes do Evangelho.

4. Escolher: a liberdade cristã como resposta vocacional

Um dos pontos mais delicados da pastoral juvenil salesiana de hoje é a relação entre fé e liberdade. Somente a “escuta livre” permite experimentar a força libertadora do Evangelho.

  • Ofereçamos aos jovens espaços e experiências baseados num cristianismo audacioso, sem medo, uma proposta de vida cristã simples e credível.
  • Orientemos para a ação: que cada ação e cada proposta concreta sejam vividas e guiadas pela Palavra para serem sinais de uma espiritualidade integral. O serviço emerge então como expressão natural de uma fé madura e de uma liberdade autêntica.

5. Os 150 anos dos Salesianos Cooperadores: um modelo para hoje

A comemoração dos 150 anos dos Salesianos Cooperadores oferece à missão salesiana uma oportunidade única: o sonho de Dom Bosco de um “grande movimento de pessoas” comprometidas com o bem da juventude.

  • Protagonismo juvenil: os jovens não são apenas destinatários da ação pastoral, mas sujeitos ativos. Tal como os primeiros Cooperadores, os jovens partilham, desde o início, o sonho de Dom Bosco. Isto também é válido para os jovens de hoje: são chamados a ser protagonistas da evangelização, especialmente dos seus pares.
  • Alianças educativas: a missão salesiana não pode ser obra de indivíduos isolados, mas requer redes de colaboração entre famílias, comunidades cristãs, escolas, associações e o mundo do trabalho. Os Salesianos Cooperadores de ontem e de hoje representam esse espírito de aliança pastoral.
  • Dimensão missionária: o carisma salesiano é intrinsecamente missionário. Cada opção pastoral não pode limitar-se à preservação do que já existe, mas deve abrir-se às periferias, às novas formas de pobreza, aos jovens mais distantes.
  • Laicidade fecunda: os Salesianos Cooperadores testemunham a beleza da vocação laical na Igreja. Isso significa valorizar e levar a sério o papel específico dos leigos na educação para a fé, respeitando e promovendo a sua competência e autonomia.

Conclusão

O Lema 2026 oferece à Família Salesiana um programa ao mesmo tempo desafiador e fascinante. Num tempo em que os jovens são descritos, muitas vezes, pelos problemas ou fragilidades, a proposta salesiana vê-os com os olhos da fé. Quando encontram propostas credíveis e testemunhas confiáveis, os jovens mostram-se portadores sinceros de dons específicos, realmente capazes de escuta autêntica, prontos para fazer escolhas generosas.

Como Maria em Caná, nós, educadores e educadoras na fé, somos chamados a testemunhar Cristo aos jovens, não como “objeto” mas como relação libertadora; a propor a vida cristã não como regras a seguir, mas como plenitude de vida oferecida gratuitamente. “Fazei tudo o que Ele vos disser” não é um convite à obediência cega, mas à liberdade responsável, comunicada por quem já encontrou e vive o Amor, e quer compartilhá-lo porque nele está a verdadeira vida.

Termino com uma reflexão de Romano Guardini.17 Ele afirma que a nossa fé é uma «fé contestada», que deve continuamente verificar o próprio fundamento, e talvez desfazer-se do variado e do belo para apegar-se apenas ao essencial“. Isto significa que, quando surge a dúvida ou o desânimo – que frequentemente nos atacam na nossa missão – percebemos que a verdadeira fé é aquela “que sempre se ergue de novo contra a dúvida. […]” Aquela forma característica de fé que (São John Henry) Newman descreveu bem quando afirmou que «crer» significa «poder sustentar a dúvida»”.

O vinho novo do casamento de Caná, que simboliza a novidade promovida por quem crê, é levado por nós com alegria e esperança, também, e sobretudo, no meio de desafios e dificuldades, dúvidas e incertezas. Seja na Igreja ou na sociedade, os jovens que acompanhamos são portadores de uma sede de vida autêntica. Procuram encontrar crentes que comuniquem uma proposta cristã credível e que, por isso, sejam por eles considerados confiáveis. Esse é o desafio que o LEMA 2026 confia a todos nós, Família Salesiana, que dedicamos particular atenção às novas gerações.

O sonho de Dom Bosco continua sempre que um jovem descobre, nos educadores e pastores que encontra, não um limite à sua liberdade, mas um caminho para se tornar plenamente ele mesmo, um crente que vive a própria fé ao serviço dos irmãos. Esta é a “boa nova” que a missão salesiana é chamada a anunciar: a audácia da fé e a alegria da partilha.

Este é o LEMA que, com alegria e emoção, vos ofereço e que me comprometo a viver, eu mesmo, em primeiro lugar.


  1. Papa Francisco, Carta Encíclica Lumen fidei (2013). ↩︎
  2. Papa Francisco, Audiência Geral, 8 de junho de 2016: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2016/documents/papa-francesco_20160608_udienza-generale.html ↩︎
  3. Joseph Ratzinger-Benedetto XVI, Gesù di Nazaret, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano, 2007, p.292. ↩︎
  4. Idem. ↩︎
  5. Dominic VELIATH, “Encounter of the Salesian Charism. South Asian Context”, in, Journal of Salesian Studies, July–December 2015, Vol.16, n.2, pp.189-207; cf. https:// www.salesian.online/wp-content/uploads/2020/03/JSS_16_N_2_Encounter_of_the_Salesian_Charism_with_the_Southern_Asian_Context-Dominic_Veliath1.pdf ↩︎
  6. Idem, p. 207. Original em inglês: The Salesian charism is still on a pilgrimage. Every pilgrimage involves a certain amount of risk; at times one is challenged to venture along what may seem as yet an uncharted course. It is in this setting that every Salesian, including the Salesian in the South Asian context, confident in the abiding presence of the Spirit of God, rooted in the Salesian charism and in fraternal communion with the Salesian congregation at large, is called to continue his journey with a little of that trust which has so insightfully been described by the poet Antonio Machado in his poem Caminante no hay Camino: “Wayfarer! There is no way. The way is made by walking”. ↩︎
  7. Da carta que Madre Teresa escreveu a toda a família das Missionárias da Caridade, durante a Semana Santa de 1993 – 25 de março, cf.: R. Cantalamessa, La Terza predica d’Avvento, il 19 dicembre 2003: “Conoscete il Gesù vivo?” ↩︎
  8. Pietro BRAIDO, Dom Bosco, padre dos jovens no século da liberdade (Editora Salesiana – São Paulo, 2008), Vol. I, Cap. VII: A revelação de Dom Bosco educador (1846-1850), p.212. ↩︎
  9. Idem., p.219. ↩︎
  10. São João Paulo II, Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, 6 de janeiro de 2001. ↩︎
  11. Simon Weil, Quaderno IV, pp. 182-183. ↩︎
  12. Carta ao Sr. Carlo Vespignani, 11 de abril de 1877, em Francesco MOTTO (ed.), Giovanni BOSCO, Epistolario, Vol. V (1876-1877), LAS-Roma 2012, p. 344. ↩︎
  13. Pietro BRAIDO, Dom Bosco, padre dos jovens no século da liberdade, Vol. 2 (Editora Salesiana – São Paulo, 2008), Sugiro a leitura do Capítulo vinte e dois, Projeto de solidariedade católica na missão entre os jovens (1873-1877), p.173-194. ↩︎
  14. E. Viganò, A Associação dos Cooperadores Salesiano. Carta publicada em ACG n. 318, 1986. ↩︎
  15. https://www.donboscoland.it/it/page/il-cooperatore-nella-mente-di-don-bo-sco ↩︎
  16. Bollettino Salesiano, Luglio 1885, Anno IX. n. 7 ↩︎
  17. R. Guardini, Sorge um dem Menschen, Bd. I, Werkbund, Würzburg 1962, tr. it. di Albino Babolin, Ansia per l’uomo, vol. I, Morcelliana, Brescia 1970, p. 130. ↩︎

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