Dupla fidelidade

A Igreja em acção não pára! Em todos os lugares e tempos, os seguidores de Jesus, tu, eu, tantos outros, fazem muitas coisas para viver e anunciar o Evangelho da alegria.

Mas como saber se o que estamos a fazer tem sentido? Não basta repetir aquilo que encontramos nos evangelhos ou nos actos dos apóstolos. Vivemos num mundo diferente e repetir mecanicamente as coisas de antes é receita certa para o desastre.

Há mais de 50 anos, o papa da altura. S. Paulo VI, disse uma coisa óbvia, mas poderosa: para que o nosso agir tenha qualidade tem ao mesmo tempo de respeitar a revelação de Deus e a condição das pessoas a quem o Evangelho é anunciado. Temos de ser fiéis a Deus e às pessoas. Fala-se de uma dupla fidelidade.

O critério da dupla fidelidade é como um “GPS” para o agir da Igreja e dos discípulos. Ele lembra-nos que o agir pastoral não acontece no vazio: vive sempre entre dois polos obrigatórios. Por um lado, a Igreja precisa de ser fiel ao Evangelho, a mensagem de Jesus que inspira, questiona e transforma. Por outro, deve ser fiel às pessoas concretas, com as suas dúvidas, sonhos, ritmos e desafios. Só quando estas duas fidelidades caminham juntas é que a missão faz sentido.

A fidelidade ao Evangelho significa que a Igreja não inventa a sua própria mensagem. O centro é sempre Jesus: o seu modo de viver, de amar e de olhar o mundo. Esta fidelidade impede que o cristianismo se reduza a um conjunto de regras ou a uma espécie de “motivação espiritual” sem profundidade. Ser fiel ao Evangelho é deixar-se guiar pela Palavra, pela tradição viva e por aquilo que a comunidade cristã tem vindo a discernir ao longo dos séculos. Esta raiz dá consistência à fé e protege a missão de se tornar superficial ou vazia.

A segunda fidelidade é igualmente importante: a fidelidade ao ser humano. Anunciar o Evangelho não é despejar informações religiosas; é tocar o coração das pessoas. Para isso, é preciso conhecer o mundo onde as pessoas vivem: as redes sociais que as influenciam, as pressões da escola, o impacto da tecnologia, as perguntas sobre futuro, identidade, justiça ou espiritualidade. A pastoral só funciona quando fala a linguagem das pessoas, quando sabe escutar antes de falar, quando se preocupa verdadeiramente com a vida concreta de cada um.

A dupla fidelidade não é um “equilíbrio” forçado entre o que Deus quer e o que as pessoas gostam. É, antes, uma forma de perceber que o Evangelho só é bem

anunciado quando entra na vida real; e que a vida real só encontra sentido pleno quando se deixa iluminar pelo Evangelho. Se a Igreja se focasse apenas no Evangelho, sem olhar para as pessoas, correria o risco de se tornar distante e incompreensível. Se olhasse apenas para as necessidades humanas, esquecendo o Evangelho, perderia a sua originalidade e reduzir-se-ia a uma ONG simpática, mas sem força espiritual.

Recorda a forma como Jesus falava e agia; Ele sentia-Se sempre unido ao Pai e procurava em tudo fazer a sua vontade. Ao mesmo tempo encontrava as pessoas onde elas estavam, falava a linguagem que elas entendiam.

Por isso, o critério da dupla fidelidade é sobretudo um processo de discernimento: ouvir Deus, ouvir as pessoas. É isso que permite descobrir como viver hoje o Evangelho de forma autêntica. Isso implica oração, diálogo, estudo, atenção aos sinais dos tempos e coragem para experimentar caminhos novos. A fé não se vive por repetição automática; vive-se por criatividade responsável, à luz de Jesus.

A dupla fidelidade ajuda a Igreja a ser aquilo que é chamada a ser: um espaço onde Deus encontra cada pessoa na sua história concreta. É um convite a levar o Evangelho ao mundo real dos jovens, com as suas perguntas e beleza e, ao mesmo tempo, a deixar que esse Evangelho continue a inspirar sonhos grandes e transformadores.

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