MASCARARAM-NO DE REI

Rui Santiago, cssr (texto), Miguel Cardoso (fotografia) | fev 01, 2016
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Sem o mascararem, não conseguiam gozar com ele. Olhos nos olhos, nu-a-nu, percebiam que o que estava a acontecer na vida daquele Homem era sério demais. Então, era preciso torná-lo qualquer coisa de faz-de-conta para não perderem valentias diante dele. Foi por isso – oh Pai Santo e Bom a quem deram cabo do Filho – foi por isso que foram arranjar um pano para fazer de manto real, uma cana para fazer de cetro e aquela coroa estúpida, toda entrançada de espinhos. Mascararam-no de rei, arranjaram um personagem, porque o teu Jesus não era Homem de se enfrentar “a frio”. Travestiram-no de maneira a descarregar nele a violência que todos os poderes e reis de turno lhes inspiravam e mereciam! Logo nele, que trazia inscrito no corpo um poder todo novo e manso.

Conta-se que houve um centurião romano que estava lá, mesmo diante, quando Jesus morreu. Quer dizer: quando acabou a encenação e as bocas burlescas. Nessa hora, baixou o pano. Aliás: caiu o pano! Rasgou-se de alto a baixo, conta o evangelho. Então, tombadas as máscaras e ficando ali frente-a-frente com aquele Homem em carne viva, o tal centurião foi atraído a um mistério para o qual não encontrou outras palavras senão as que ainda ecoam por aí: “Este Homem era mesmo Filho de Deus…”

Afinal, os chefes tinham razão: o galileu é perigosíssimo! Até na sua maneira de morrer introduz no mundo um paradoxo do qual nem dois mil anos são capazes de nos imunizar. O teu Jesus, tão bom e tão verdadeiro, desceu aos porões da Humanidade, aos infernos do nosso mundo. A morte tremeu diante dele, arranjou-lhe fato carnavalesco para o poder enfrentar, maquilhou-o a pó e sangue para conseguir olhar para ele. E ele resistiu deixando-se matar. E ele lutou absorvendo toda a violência, anulando os golpes em si, tirando perdão da brutidade, doçura da dureza e paz da arrogância. A morte chegou a Jesus tarde demais. O que é que a morte tem para tirar a quem já deu tudo?! A morte chegou tarde demais à vida de Jesus. A morte morreu nesse atraso.

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Mas, oh Pai Bom… as palavras que trago entaladas na garganta por causa do que aconteceu ao teu Jesus, aquelas que quero dizer-Te mas que me cortam a língua quando saem, são assim: Tu tinhas todos os motivos para não gostares de nós. Mas gostas. E muito! Esse é um mistério de Graça e de Perdão que não tenho ilusões de algum dia vir a entender.

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