Maturacá, Brasil: Uma semente que está a dar frutos

 O padre Lázaro Santos é o diretor e pároco da Missão do rio Maturacá. Afirma que a sua vocação missionária entre os povos indígenas lhe vem dos genes, a sua avó “tinha sangue indígena”.

Nasci em Manaus, capital do Estado do Amazonas. Depois mudámo-nos para o interior, onde morámos oito anos, sobrevivendo de caça e das frutas que plantávamos. Para participar na Missa tínhamos que caminhar quatro quilómetros. Quem celebrava a missa era um padre italiano. Quando terminei os estudos primários, a minha família voltou para a cidade. Ali iniciei a Catequese: tinha 14 anos. E comecei a ajudar na Liturgia. Ouvi falar dos salesianos nas boas-noites que meu pai me dava: ele era antigo aluno salesiano do Rio Negro. Entrei para a experiência vocacional salesiana depois do Ensino Médio, como voluntário, numa obra social chamada Pró-Menor Dom Bosco.

Lembro-me muito bem que quando o Provincial da época me disse, a mim e a outro jovem, «Precisamos de jovens para trabalhar entre os indígenas no Rio Negro…», essa frase me marcou muito. No ano 2006, já salesiano e tirocinante, comecei a trabalhar com os Ianomami, em Maturacá. Naquele ano promovi na minha comunidade muitas atividades entre os jovens e entre as famílias: oratório, educação, catequese, passeios… Depois dessa rica experiência com os Ianomamis, fui fazer os estudos de Teologia em Jerusalém, Seminário de Ratisbona dos salesianos. Em 2013, fui enviado aos povos indígenas do rio Marauiá. Aceitei com alegria esse envio. Agora estou a trabalhar, há já quatro anos, com os Ianomamis. Dirijo uma escola e, nos últimos dois anos, tenho trabalhado com os professores na pastoral, visando a catequese desses Povos.

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Pe. Lázaro Santos, salesiano missionário

Penso que os lemas da minha ordenação e de profissão religiosa tenham tudo a ver com esse chamamento missionário para trabalhar com os povos indígenas. Na Profissão Religiosa: “Eis-me aqui: envia-me!” (Is 6,8); na Ordenação Diaconal: “Seja feita a tua vontade!” (Mt 6,10); e na Ordenação Sacerdotal: “Eu sou o Bom Pastor. O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas!” (Jo 10,11).

Os principais desafios da missão são a escassez de missionários salesianos nestas áreas; o facto de algumas organizações presentes na região dificultarem o trabalho dos salesianos, querem colocar os indígenas contra nós; a falta de meios materiais para desenvolver a missão entre os Ianomamis e demais etnias da região; e as enormes distâncias entre as comunidades indígenas.

Olhando para estes anos passados nesta Província da Amazónia, a minha maior alegria é saber que – graças ao trabalho de tantos salesianos, que deram suas vidas por estas missões indígenas – a semente está a frutificar. A semente do Verbo Encarnado já está presente no coração destes Povos: os Missionários apenas a fazem brotar. Hoje somos parte desta história. E também a nós nos cabe continuar a semear. Colheremos certamente, nesta região do Rio Negro, muito fruto: tantíssimos “bons cristãos e honestos cidadãos”.

Deixo aos jovens a mensagem para nunca terem medo de dizer “sim” ao trabalho pelos e com os povos indígenas: eles precisam da sua presença para partilhar o conhecimento de culturas diferentes; vir desarmados de preconceitos e conhecer a riqueza dos povos indígenas; todos podemos viver em harmonia, se respeitarmos a cultura do outro e soubermos partilhar, com humildade de coração, os nossos conhecimentos: não ter medo de fazer uma nova experiência de partilha cultural e vivenciá-la com o Senhor, no espírito salesiano de Dom Bosco. 

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Fonte: ANS
Publicado no Boletim Salesiano n.º 564 de Setembro/Outubro de 2017

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