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Salesianos > Documentos > Lema do Reitor-Mor 2017

SOMOS FAMÍLIA! Cada casa, uma escola de Vida e de Amor.

CARÍSSIMOS IRMÃOS E IRMÃS
DA FAMÍLIA SALESIANA,

No dia 1 de janeiro de 2006, o padre Pascual Chávez Villanueva, então Reitor-Mor, dava a conhecer o Lema de 2006, intitulado: «E Jesus crescia em sabedoria, em idade e em graça» (Lc 2,52) . Foi um convite do Reitor-Mor a renovar o empenhamento em favor da Família, assumindo o convite do Papa João Paulo II a defender a vida por meio da família, e também por ocasião dos 150 anos da morte de Mãe Margarida, mãe de Dom Bosco e verdadeira mãe dos rapazes no Oratório de Valdocco.

Dez anos depois, dirijo-me a toda a querida Família Salesiana no mundo com este Lema que quer centrar a sua atenção nas famílias dos mais diversos contextos em que estamos presentes, e cujo tema é sugerido, como não podia deixar de ser, pela prioridade que a Igreja está a dar à necessidade de cada vez maior e mais adequada atenção pastoral às famílias.

Dois foram os Sínodos que o Papa Francisco quis dedicar à reflexão sobre ‘A Família’, na sequência de alguns elementos pastorais já por ele indicados na exortação apostólica «Evangelli Gaudium» (do ano 2013). Um, foi o Sínodo extraordinário de 2014, e o outro, o Sínodo ordinário de 2015. Segue-se-lhes a exortação apostólica «Amoris laetitia» (A Alegria do Amor), assinada em 19 de março de 2016.

No meu entender, este tempo eclesial pede-nos, como Família Salesiana de Dom Bosco, que demos prioridade em todo o mundo salesiano à atenção educativa pastoral que devemos prestar às famílias.

Como sempre acontece, o Lema dirige-se a todos e a cada um dos membros e grupos da Família Salesiana, no intuito de tomarmos mais viva consciência da nossa missão e dever para com as famílias, e o concretizarmos no serviço e acompanhamento que se espera de nós.

1. O TEMA DO LEMA

Ao dizer: «Somos Família! Cada casa, uma escola de Vida e de Amor», queremos dizer, já desde o início, que todos e cada um de nós temos a experiência de ter nascido no seio de uma família, com a beleza e as limitações de qualquer família, cada qual na sua; mas, em última análise, nascemos no seio de uma família, e estamos marcados pelo facto de ser família, esse espaço em que o ideal é que cada um dos lares possa ser escola de vida e de amor, dado acreditarmos que a família é essa realidade humana concreta em que se deveria aprender a arte da Vida e do Amor.

A família, as famílias do mundo – embora na sua diversidade –, são constituídas por pessoas que se amam, que se falam e se comunicam, que compartilham e se sacrificam pelos outros no seio da mesma família; pessoas que se defendem mutuamente e defendem a vida dos seus. 

Crescemos como pessoas vivendo, geralmente, em família, respirando o calor do lar, recebendo no interior da mesma, por parte dos nossos pais, ou de algum deles, o nome e a dignidade que este facto implica. Na família experimentámos os primeiros afetos e saboreámos a intimidade do ‘sentir-nos em casa’; nela aprendemos a dizer obrigado e a pedir desculpa e licença. Certamente sabemos que nem todos os meninos e meninas que vêm ao mundo podem experimentar isto; porém, mesmo na diversidade de contextos e de culturas, creio que poderia dizer-se que a maior parte de nós vivemos esta realidade da família.

E que é que o nosso ser Família Salesiana tem a ver com aquilo que se está a dizer? Justamente que, antes de tudo, somos os primeiros destinatários desta mensagem pela nossa condição de Família Salesiana de Dom Bosco que tem um forte sentido a unir-nos como família religiosa. Uma família em que na diversidade dos nossos 31 grupos (Congregações, Institutos de Vida Consagrada, Associações de Vida Apostólica, Associações de fiéis, etc.), as constituições, estatutos e regulamentos de todos, apresentam o espírito de família e o clima de família como parte constitutiva do nosso ser, da nossa identidade, bem como a referência à ação pastoral na família e com as famílias.

Isto explica o nosso dever como Família Salesiana, um dever que se concretiza em não podermos olhar noutra direção diferente daquela em que está fortemente implicada a Igreja Universal, hoje sob a guia do Papa Francisco, e que nos pede que façamos uma ‘leitura salesiana’ – como educadores que somos de rapazes, raparigas, adolescentes e jovens –, da realidade das famílias de hoje, para oferecer o nosso humilde contributo.

2. CONVITE A UMA LEITURA ATENTA, SERENA E DE CORAÇÃO PREPARADO PARA O DIÁLOGO E O ENCONTRO COM A EXORTAÇÃO AMORIS LAETITIA.

Desde este momento, convido a todos a uma leitura repousada, serena e de coração preparado para o diálogo e para o encontro com o que a Exortação Apostólica diz, de modo que nos ajude a descobrir o que o documento nos oferece e nos pede. Com olhar crente e eclesial, percebe-se que a exortação apostólica é um serviço à humanidade e um verdadeiro tesouro espiritual e pastoral. E assumimo-lo a partir da consciência de que ‘somos Família Salesiana’.

A Exortação do Papa Francisco está assente no Magistério dos últimos Papas, S. João Paulo II e Bento XVI, e nas duas Assembleias sinodais de 2014 e 2015 como já se disse. Resume, portanto, a reflexão eclesial de muitos anos, mas, ao mesmo tempo, introduz uma mudança de tom, de linguagem e de perspetiva que a partir de um plano canónico tende a outro mais pastoral.

O próprio Papa afirma que “devemos ser humildes e realistas em reconhecer que por vezes apresentámos um ideal teológico do matrimónio demasiado abstrato, quase artificialmente construído, distante das situações concretas e das efetivas possibilidades das famílias, tais como elas são. Esta idealização excessiva, sobretudo quando não despertámos a confiança na Graça, não tornou o matrimónio mais desejável e atrativo, mas totalmente o contrário” .

AMORIS LAETITA | N.º 1 – 7

A exortação trata da Alegria do Amor vivido na família e também do júbilo da Igreja perante esta realidade. Recolhe, como já se disse, o contributo de dois Sínodos  e põe em evidência como a família é uma realidade polifacetada, uma realidade complexa e ampla na qual convergem os aspetos religioso, político, cultural, económico e jurídico. Neste contexto amplo, todos somos chamados a cuidar com amor a vida das famílias dado que estas não são um problema, mas uma oportunidade. E podemos afirmar que, apesar da situação de crise que a família atravessa hoje, as novas gerações continuam a considerar a família como o seu espaço mais seguro e de acolhimento incondicional para com eles.

A FAMÍLIA À LUZ DA PALAVRA DE DEUS | N.º 8 – 30

A família está presente em larga escala na Sagrada Escritura, desde as primeiras páginas até ao livro do Apocalipse e, no que a ela se refere, fala-se de gerações, de histórias de amor, de crises familiares, de violência familiar. “O idílio apresentado no salmo 128  não nega uma realidade amarga que aparece também nas Sagradas Escrituras. É a presença da dor, do mal, da violência que abalam a vida das famílias e a sua íntima comunhão de vida e de amor”. 

No centro do citado salmo apresenta-se um casal formado por homem e mulher, com toda a sua história de amor. “Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher”. (Gen 1,27). Este casal que ama e gera vida é capaz de revelar o Deus Criador e Salvador. Este amor fecundo é sinal da realidade íntima de Deus, porque Deus, no seu mistério mais íntimo, não é solidão, mas família.

A EXPERIÊNCIA DO SOFRIMENTO E DO SANGUE NA FAMÍLIA

O sofrimento, o mal, e a violência na família são uma realidade presente nela desde as origens, tal como a Sagrada Escritura narra. Na primeira família há violência fratricida entre os irmãos Caim e Abel, e grandes conflitos estão presentes também na família de Abraão, Isaac e Jacob, David, Salomão, Tobias, Job… Na sua doença, Job desabafa falando da sua família desta maneira:

“Os meus irmãos abandonam-me, e os meus parentes tratam-me como estranho… os meus familiares esqueceram-se de mim… a minha mulher sente repugnância do meu hálito, e os meus irmãos têm nojo de mim… as pessoas mais íntimas têm horror de mim…” Job 19, 13-19) .

Também nos Evangelhos encontramos muitos dramas familiares e situações de dor em que Jesus esteve presente: a doença da sogra de Pedro, a morte de Lázaro, a morte da filha de Jairo, o drama da viúva de Naim, a falta de vinho nas bodas de Caná da Galileia… Isto ajuda a compreender que a família que se apresenta na Bíblia não é abstrata; nela há crises, sofrimentos, tribulações, fragilidades, dores, gritos…

O mesmo se pode dizer das luzes e sombras que iluminam, ou então obscurecem, a realidade da família e o trabalho como meio de sustento e elemento que gera felicidade ou então dor e angústia.

A REALIDADE E OS DESAFIOS DAS FAMÍLIAS | N.º 31 – 57

Neste capítulo o Papa Francisco apresenta um vasto panorama dos problemas e desafios que atualmente afetam as famílias, embora sem pretender uma análise exaustiva de uma realidade social hoje tão complexa.

Num contexto de profundas mudanças culturais, estruturais e de estilo de vida que afetam profundamente a família, o Papa identifica estas situações:

→ O individualismo, as tensões internas, o stress, a diminuição do número de casamentos, a coabitação sem aspeto legal;

→ A solidão, o narcisismo, a sexualidade vivida comercialmente, a comercialização do corpo, as separações, o divórcio, o declínio demográfico, a mentalidade antinatalista;

→ As novas configurações de famílias, o avanço da biotecnologia, a revolução sexual, a esterilização (feminina e masculina), o aborto, a diminuição da prática religiosa;

→ A pobreza, a falta de habitação digna, a falta de políticas adequadas em relação à família, a precariedade no trabalho;

→ A violência doméstica, o terrorismo, a toxicodependência, a insegurança económica, a dispersão de relações familiares, os ressentimentos, o ódio, as famílias disfuncionais, o enfraquecimento dos vínculos familiares;

→ A poligamia, a mutilação genital, a violência verbal, física e sexual, o abuso sexual, a discriminação, o feminismo, o machismo, a carência afetiva dos filhos, a ideologia de género…

Todavia, mesmo existindo estas situações difíceis, confirma-se que o bem da família é fundamental para o bem do mundo e da Igreja. E por isso a família deve ocupar o centro da atenção missionária da Igreja, reconhecendo que a práxis pastoral nem sempre foi esta. “Muitas vezes – diz o Papa – jogámos à defesa e gastámos as energias pastorais redobrando o ataque ao mundo decadente, com pouca capacidade proativa para mostrar caminhos de felicidade” .

DE OLHOS POSTOS EM JESUS
A VOCAÇÃO DA FAMÍLIA | N.º 58 – 88

Jesus olhou para as mulheres e para os homens do seu tempo: foi ao seu encontro com amor e ternura, acompanhando os seus passos com a verdade, a paciência e a misericórdia ao anunciar-lhes as exigências do Reino de Deus, e acompanha-nos hoje no nosso compromisso de viver e transmitir o Evangelho.

E perante as famílias de hoje deve voltar a ressoar o primeiro anúncio, que é “o mais belo, o maior, o mais atrativo e ao mesmo tempo o mais necessário… porque não há nada mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais denso e mais sábio do que esse anúncio” .

O nosso ensino sobre o matrimónio e a Família deve necessariamente inspirar-se e desenvolver-se, diz o Papa, à luz do primeiro anúncio, do anúncio da ternura e do amor que vem do Evangelho; não é a simples defesa de uma doutrina fria e sem vida. No Evangelho Jesus retoma e realiza em plenitude o projeto de vida do Pai em relação ao matrimónio: recupera o dom do matrimónio; propõe a indissolubilidade e restaura o projeto original de Deus sobre a família e o matrimónio (cfr. Mt 19,3-8).

E o matrimónio cristão como sacramento é visto na Igreja como expressão da aliança do filho de Deus com a natureza humana.

Contudo, não se ignora que, face às solicitações difíceis em que se encontram as famílias feridas, é necessário ter sempre em conta o critério do discernimento. O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos; é necessário evitar juízos que não tomem em consideração a complexidade de cada situação, e é importante ter em atenção o modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição.

Um ponto importante neste capítulo é a família como transmissora da vida. O matrimónio é considerado como uma comunidade de vida na qual o amor conjugal entre homem e mulher está ordenado também para a fecundidade. Os esposos, a quem Deus concedeu ter filhos, podem ter uma vida cheia de sentido (humana e cristãmente), procurando não permanecer fechadas em si mesmos. Por tudo isto a família é assim o santuário da vida, espaço humano onde a vida é gerada, cuidada e protegida em todas as suas etapas.

E esta dimensão essencial é acompanhada pelo desafio da educação dos filhos. 

Os pais são os responsáveis pela promoção e educação integral dos seus filhos, e este é um dever importantíssimo e um direito primário dos pais. Os estados e os governos das nações têm a obrigação de oferecer um serviço educativo de maneira subsidiária, mas os pais têm o direito de escolher livremente o tipo de educação acessível e de qualidade que querem dar a seus filhos de acordo com as suas convicções, e a escola não pode substituir os pais, mas há de servir de complemento.

Infelizmente, hoje abre-se um abismo entre as famílias e sociedades. A aliança entre sociedade e família está em crise, e nesta situação a Igreja é chamada, mais do que nunca, a colaborar por meio da sua ação pastoral especializada com os pais na sua missão educativa.

Em particular a família cristã, como Igreja doméstica deve viver a partir do Evangelho e é chamada a amadurecer a experiência eclesial de comunhão entre as pessoas: comunhão, perdão, ternura, amor fraterno, oração…

O AMOR NO MATRIMÓNIO | N.º 89 – 164

Neste capítulo, o Papa Francisco apresenta uma visão teológica do amor no matrimónio e na família comentando o hino ao amor de 1 Cor 13, 4-7, e sublinhando algumas atitudes essenciais:

“O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. (1 Cor 13,4-7).

A paciência não é só suportar tudo; é compatível também com não deixar que os outros nos maltratem, nem tolerar as agressões físicas, nem permitir ser tratado como um objeto. A paciência é um traço que define também o Deus da Aliança. Ele mostra-se paciente através da Misericórdia e, por isso, para nós a paciência há de ser experiência de compaixão, assim como domínio pessoal para não reagir com violência perante a fraqueza dos outros, não se deixar vencer pelo mal, nem desanimar na prática do bem.

Também se trata neste capítulo da atitude de serviço como uma relação dinâmica e criativa face à necessidade dos outros, como esse amor bondoso que procura o bem dos outros; um amor que é generoso, que faz o bem, dado que o amor não é só um sentimento, mas a capacidade de fazer o bem.

É alegrar-se com o bem do outro, posto que no amor não há espaço para o desgosto em relação ao outro. O verdadeiro amor aprecia o êxito alheio, não o sente como uma ameaça e valoriza sinceramente cada ser humano e reconhece o seu direito à felicidade. A inveja, pelo contrário, é antes de tudo tristeza diante do bem alheio e desinteresse pela felicidade dos outros.

Nesta enumeração de atitudes vitais evangélicas faz-se referência também ao orgulho que, sem dúvida, não combina com o amor, posto que o orgulho é desejo de glória e considera-se superior aos outros. O amor, pelo contrário, não se engrandece perante os outros, é atento, constrói, compreende, cuida, protege e está atento aos débeis; os arrogantes, chega a dizer o Papa, são insuportáveis.

Para um verdadeiro encontro com o outro é necessária a amabilidade, oferecer um olhar amável. O amor é amável e por isso gera vínculos novos, cultiva laços, cria novas redes de integração, constrói um tecido social firme. A pessoa que ama é capaz de dizer uma palavra de ânimo que reconforta, fortalece, consola e estimula.

Jesus era assim, animava as pessoas… Dizia-lhes: “coragem, os teus pecados estão perdoados” (Mt 9,2); “Grande é a tua fé!”; “Levanta-te” (Mc 5,41); “Vai em paz” (Lc 7,50); “Não tenhas medo” (Mt 14,27); dava palavras de alento, de esperança às pessoas… E nas nossas famílias podemos aprender muito com linguagem e sobretudo com as atitudes amáveis de Jesus.

O desprendimento é outro dos traços do amor. Para amar os outros é preciso amar-se a si mesmo, todavia o amor não busca os seus próprios interesses: “Não cuides só do que é teu, mas também do que é dos outros” (Flp 2,4). 

A prática do perdão significa, por sua vez, não tomar em conta o mal; trata-se de assumir uma atitude positiva que procura compreender a debilidade alheia e buscar uma desculpa diante da fraqueza; assim fez Jesus: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Por isso, para poder perdoar temos de passar por uma experiência libertadora; precisamos de nos sentir abraçados pelo amor incondicional de Deus…, que ama sem limites.

O amor alegra-se com os outros, alegra-se com a verdade, alegra-se com o bem do outro, reconhecendo a sua dignidade, as suas boas obras. O amor entrega-se, arrisca… já que “Deus ama quem dá com alegria” (2 Cor 9,7) e “a felicidade está mais em dar do que em receber”. (Act 20,35).

O amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta…; é aí que se mostra com vigor o dinamismo paradoxal do amor, capaz de enfrentar tudo; o amor não prejudica a imagem do outro, não descarrega maus sentimentos. O amor recebe quem o incomoda, convive com a imperfeição, desculpa e sabe guardar silêncio perante os defeitos do ser amado.

Pensando nos esposos, estes devem aprender a falar bem um do outro, mostrar mais as qualidades do outro e não evidenciar tanto as suas debilidades, diz o Papa. Isto exige cuidado com a língua, porquanto às vezes a língua está cheia de veneno mortal (cfr. Tg 3,6-8).

O amor confia, não procura controlar o outro, nem seguir minuciosamente os seus passos, para evitar que “se escape dos meus braços”; dá liberdade, renuncia a controlar tudo, a possuir e dominar o outro. O amor dá espaço de autonomia, de abertura e de experiência de liberdade, posto que onde não há amor não há liberdade.

E o amor tudo espera. Por isso é importante acreditar que o outro pode mudar, melhorar e esperar sempre que será possível amadurecer, bem como acreditar nas suas potencialidades.

O amor santificado pelo sacramento do matrimónio, ou “Caridade Conjugal” é dinâmico e cresce constantemente sob o impulso da Graça (uma vez que é Deus quem santifica); e, se este amor não cresce, começa a correr perigo.

Já se disse que o crescimento na Caridade Conjugal é possível através da Graça divina, mas também com a ajuda do esforço humano, do silêncio interior, da escuta do coração, do desapego, do diálogo, da oração, da educação das próprias emoções (superação do descontrolo e da obsessão), do hábito de dar real importância ao outro, não subestimando as suas necessidades e os seus desejos.

Como nota final deste capítulo o Papa Francisco refere-se também ao celibato e à virgindade pelo Reino. Afirma que o amor também se expressa de diversos modos e estilos de vida, de acordo com as diversas vocações; entre outras, o celibato e a virgindade pelo Reino como forma de amor, como Dom de Deus (cf. 1 Cor 7,7). 

E não há superioridade nem inferioridade entre as diversas vocações. Matrimónio e celibato são duas vocações complementares.

O AMOR QUE SE TORNA FECUNDO | N.º 165 – 198

O amor está sempre aberto a acolher uma nova vida, sempre dá vida, e nele a família é o lugar onde se gera a vida, onde esta se recebe e se desenvolve. Cada nova vida vem como um presente de Deus, como sinal do amor gratuito de Deus.

Afirma o Papa que cada mulher participa “no mistério da criação que se renova na geração humana”  e é por isso que a maternidade é uma colaboração com Deus no milagre de cada vida nova e cada mulher participa no mistério da criação que se renova ao gerar uma nova vida humana.

Assim diz o salmista na Sagrada Escritura:

Tu me formaste no seio de minha mãe” (Salmo 139, 13); “Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei” (Jr 1,5).

E o Papa, com verdadeiro coração de Pai e Pastor, chega a dizer: “A cada mulher grávida, quero pedir-lhe afetuosamente: Cuida da tua alegria, que nada te tire a alegria interior da maternidade. Essa criança merece a tua alegria. Não permitas que os medos, as preocupações, os comentários alheios ou os problemas apaguem a felicidade de ser instrumento de Deus para trazer uma nova vida ao mundo” .

Toda a criança tem direito a receber o amor de uma mãe e de um pai; ambos são necessários para o seu amadurecimento integral e harmonioso, e respeitar a dignidade de uma criança significa afirmar a sua necessidade e o seu direito de ter um pai e uma mãe, colaboradores do amor de Deus. Juntos, pai e mãe ensinam o valor da reciprocidade, do encontro de seres diferentes, onde cada um colabora com a sua própria identidade, paterna e materna, masculina e feminina, para o harmónico desenvolvimento da criatura.

Hoje notamos, afirma o Papa, que muitas crianças e jovens sentem a ausência de seus pais: há vazios de presença materna e crises de paternidade. E, em particular, perante situações difíceis como a da chamada crise de paternidade, “as mães são o antídoto mais forte contra o propagar-se do individualismo egoísta. (…)

São elas que testemunham a beleza da vida” . Sem dúvida, uma sociedade sem mães seria uma sociedade inumana, porque as mães sabem testemunhar sempre, mesmo nos piores momentos, a ternura, a entrega, a força moral.

Por último, fala-se da família alargada. A maternidade não é uma realidade exclusivamente biológica, mas que se expressa de formas diversas como, por exemplo, a adoção. Adotar é um ato de amor e desta forma a fecundidade do amor cresce, alarga-se.

ALGUMAS PERSPETIVAS PASTORAIS | N.º 199 – 258

Não se trata aqui de apresentar normas, mas de estar atentos às expetativas mais profundas da pessoa humana e propor valores. É necessária uma evangelização que denuncie os desafios e os condicionamentos culturais, sociais, políticos e económicos da atualidade.

É necessária uma pastoral em diálogo e cooperação com as estruturas sociais, de maneira que impulsionem e apoiem os leigos no âmbito cultural e sociopolítico. O contributo da Igreja para com a família passa pela pastoral familiar e uma maior formação de presbíteros, religiosos e religiosas, e agentes leigos.

Neste caminho pastoral é necessário ajudar os jovens a descobrir o valor e a riqueza do matrimónio através do processo de preparação dos noivos ajudando ao crescimento genuíno no amor interpessoal. Os noivos precisam de ser acompanhados no processo de preparação para que assumam o matrimónio como uma vocação, como um processo de amadurecimento no amor.

Deve assegurar-se também uma rica preparação da celebração do matrimónio e o acompanhamento nos primeiros anos de vida matrimonial. De igual modo se devem acompanhar a paternidade e maternidade, que devem ser decisões responsáveis e pressupõem a formação da consciência dos esposos.

REFORÇAR A EDUCAÇÃO DOS FILHOS | N.º 259 – 290

Os pais influenciam sempre, para bem e para mal, no desenvolvimento moral dos seus filhos, e essa missão educativa da família é sempre importante e complexa. A família não pode renunciar a ser um lugar privilegiado de apoio, acompanhamento e guia de seus filhos. O abandono nunca é solução. Educar, pelo contrário, é gerar processos de amadurecimento da liberdade; educar é promover um crescimento integral e cultivar uma autêntica e verdadeira autonomia. A educação dos filhos implica a tarefa de promover a liberdade responsável para enfrentar as encruzilhadas da vida com sabedoria, segurança e inteligência.

Ao pai corresponde também promover a formação ética de seus filhos, já que esta não se pode delegar, nem entregar a terceiros. Esta formação moral deve levar-se a cabo com métodos positivos e diálogo que toma em conta a sensibilidade dos filhos.

Esta educação ético-moral supõe também mostrar à pessoa o que lhe é sempre mais conveniente: a busca do bem. Há de favorecer os bons hábitos e cultivar essa liberdade responsável que chega a garantir uma autonomia madura.

Também não se pode deixar de lado a educação sexual, e deve ser dada no momento apropriado. Uma educação sexual que inclua o respeito e a valorização das diferenças, que ajude os jovens a aceitar o próprio corpo na sua singularidade. Ser masculino e feminino não é questão puramente biológica ou genética, posto que a diferença sexual leva consigo múltiplos outros elementos… A diferença sexual (ser masculino ou feminino) é, em última análise, obra de Deus.

Finalmente não se pode esquecer que o pai tem a responsabilidade da transmissão da Fé aos seus filhos; a família deve continuar a ser o lugar onde se ensinam as razões e a beleza da Fé. A transmissão da mesma pressupõe que os pais vivam uma experiência real de confiança em Deus, que busquem e precisem de Deus e que as crianças precisarão de sinais, gestos, histórias…

É fundamental que os filhos vejam de maneira concreta a experiência de fé e de oração de seus pais.

ACOMPANHAR, DISCERNIR E INTEGRAR A FRAGILIDADE | N.º 291 – 312

A Igreja deve acompanhar infundindo nas famílias a confiança e a esperança. Mas há também famílias feridas e, por isso, muitas vezes o trabalho da Igreja é semelhante ao de um hospital de campanha. Será necessário usar a lei da gradualidade na ação pastoral; atualmente é grande a falta de consciência matrimonial, o desconhecimento do valor do compromisso. Por isso, para promover o matrimónio cristão será necessária uma pastoral misericordiosa, alentadora, de diálogo, de discernimento…

O Papa faz notar como hoje muitos jovens e adultos preferem uma simples convivência, levados por uma mentalidade muito generalizada, mas é necessário enfrentar a situação de forma construtiva, um seguimento e acompanhamento paciente e delicado, como fez Jesus com a mulher samaritana.

E nesta parte da Exortação apostólica o Papa aborda o importante e delicado tema do discernimento de situações que requer leitura atenta e aprofundamento. 

No Sínodo, os Padres Sinodais referiram-se às diversas situações de fragilidade e imperfeição em que vivem muitas famílias; o caminho da Igreja não há de ser o da condenação das pessoas. É necessário tomar em consideração a complexidade das situações.

Ninguém deve ser condenado… Somos chamados a usar a pedagogia divina evitando toda a ocasião de escândalo.

Aos sacerdotes e agentes de pastoral corresponde, em geral, acompanhar, promover o discernimento compreendendo o grau de responsabilidade que não é igual para todos, e a lógica da missão deverá ser a da misericórdia pastoral. Será necessário acompanhar com misericórdia e paciência as diversas etapas de crescimento das pessoas.

A ESPIRITUALIDADE MATRIMONIAL E FAMILIAR | N.º 313 – 325

O amor tem matizes diferentes, segundo o estado de vida ao qual cada um é chamado. A espiritualidade matrimonial é uma espiritualidade do vínculo alimentado pelo amor divino, e a comunhão familiar vive-se como caminho de santificação na vida diária: “Quem ama o seu irmão permanece na luz” (1 Jo 2,10).

Quando a família se concentra em Cristo, Ele unifica e ilumina toda a vida familiar, com seus problemas e sofrimentos; assim evita-se toda a rotura e a oração em família é um meio privilegiado para expressar e reforçar a fé pascal.

Espiritualidade do amor exclusivo. No matrimónio, os esposos vivem o sentido de pertença plena a uma única pessoa, assumindo o desafio e o anelo de envelhecer juntos e, por isso, renovando todos os dias perante Deus esta decisão de fidelidade, aconteça o que acontecer ao longo dos dias. Nesta aliança cada cônjuge torna-se sinal e instrumento da proximidade do Senhor: “Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28, 20).

Espiritualidade da disponibilidade e do consolo. Os esposos cristãos são colaboradores da Graça e testemunhas de fé um para o outro. Deus convida os esposos a gerar e cuidar toda a vida da família e a pessoa amada merece toda a atenção; neles Jesus é modelo: quando alguém se aproximava para Lhe falar, Jesus olhava-o com amor (cf. Mc 10,21); despertava no outro a alegria de se sentir amado.

Somos conscientes de que nenhuma família é uma realidade perfeita e por isso se requer um progressivo amadurecimento na capacidade de amar.

Cada família deve viver constantemente com um estímulo positivo: Caminhemos, famílias, continuemos a caminhar. O que se nos propõe é sempre mais. Não desanimemos com os nossos defeitos, mas também não desistamos de buscar a plenitude do amor e da comunhão que nos foi prometida.

3. CADA LAR, UMA ESCOLA DE VIDA E AMOR.

O NOSSO CONTRIBUTO EDUCATIVO-PASTORAL 

3.1 A FAMÍLIA, OPÇÃO DE DEUS INCARNADO 

“Deus escolheu uma mãe, para nascer homem, e uma família para crescer e amadurecer como tal. Este é o dado de fé que um cristão não pode esquecer quando reflete sobre a família”. Assim começa o mencionado artigo; de facto, é sinal distintivo da fé cristã a confissão da incarnação de Deus, como expressa o Catecismo da Igreja Católica. Indubitavelmente, se o motivo da nossa salvação foi o amor que Deus nos tem, a incarnação foi o modo da sua realização.

Todavia há algo mais neste facto que atrai fortemente a nossa atenção. A decisão de Deus de assumir no Filho a condição humana passa através de dois factos muito significativos: nascer de uma mulher, tornando-se filho de Maria Virgem, e que nasceu em família, quer dizer, buscou uma família na qual nascer e crescer como ser humano.

Algo que conhecemos bem e que toca muito de perto a nossa sensibilidade é o facto de que Deus se fez filho anunciando a seus pais o seu próprio nascimento e convencendo-os para que dessem o seu assentimento, o seu sim.

No caso de Maria, ela é agraciada antes de ser mãe. O filho já está pensado por Deus, antes de poder ser desejado por sua mãe. E Maria nem sequer pede um sinal para crer. Deus propõe-lhe um plano para o qual não se sente capacitada. A virgem conceberá o filho, que não é fruto de uma vida matrimonial prévia (Lc 1,35).

No caso de José, Deus descobre-lhe o seu plano – diferentemente do que aconteceu com Maria –, não mediante um diálogo (Lc 1,28), mas durante um sonho (Mt 1,18.24). José ‘sonha’ o que Deus quer dele depois do forte choque que lhe produz a irrupção de Deus no seu matrimónio: o concebido nela é obra do Espírito (Mt 1,18.20). E Deus, que ‘usurpou’ a sua paternidade sem seu conhecimento e sem sua licença, pede-lhe agora que aceite este facto.

Ambos, tanto Maria como José, de maneira diferente em cada um, posto que diversas eram as suas responsabilidades e funções dentro da família, tiveram de pagar um preço por ser família de Deus, tanto na infância e adolescência de Jesus como no seu ministério público, num caminho não isento de muitas dificuldades, realidade esta que aproxima ainda mais a família de Nazaré das famílias de ontem e de hoje, das famílias de todos os tempos.

A vontade salvífica de Deus, isto é, que Deus queria salvar-nos ‘obrigou-O’ a tornar-se semelhante a nós. Aprendeu a ser humano como nós, aprendendo a crescer no seio de uma família, “berço da vida e do amor em que o homem ‘nasce’ e ‘cresce’”. 

Podemos dizer com certeza que foi uma família que humanizou o Filho de Deus e esta realidade verdadeira dá à família um valor sagrado excecional.

3.2 JOÃO BOSCO, EM FAMÍLIA MAS SEM PAI 

“Não tinha ainda dois anos, quando Deus misericordioso nos feriu com uma grave desgraça. Um dia, o meu querido pai, na flor da idade, cheio de robustez e muito desejoso de educar cristãmente os seus filhos, ao chegar a casa do trabalho, todo transpirado, entrou incautamente na adega, subterrânea e fria. Apanhou um resfriado e, ao anoitecer, manifestou-se-lhe uma febre alta, precursora de uma forte constipação. Todos os cuidados se tornaram inúteis e, em poucos dias, encontrou-se no fim da vida. Confortado com todos os auxílios da religião e depois de recomendar à minha mãe a confiança em Deus, expirava no 12 de maio de 1817  na idade de trinta e quatro anos.

Não sei que foi de mim naquela lutuosa circunstância. Só recordo, e é o primeiro facto da vida que guardo na memória, que todos saíam do quarto do defunto, ao passo que eu queria permanecer ali a todo o custo.

– Anda, João, anda comigo, repetia a minha aflita mãe.
– Se o papá não vem, não quero ir, respondi eu.
– Pobre filho, acrescentou minha mãe, anda comigo, já não tens pai” .

Desta maneira nos conta o mesmo Dom Bosco, 56 anos despois, este momento da sua vida. Apesar da sobriedade de Dom Bosco falando de si mesmo e em particular para expressar os seus sentimentos, deixa patente nessas linhas as suas lágrimas, a incapacidade, como criança muito pequena que era, de compreender o que acontecia ao perceber que o seu pai não se mexia nem lhe respondia, e o choro de sua mãe, já viúva, para quem a vida mudou por completo desde aquele dia.

Independentemente de que a recordação desse momento fosse viva em Dom Bosco ou pouco verosímil como diz um autor , sendo – segundo ele –, mais provável que seja uma recordação do que os adultos lhe contaram quando era pequeno, Dom Bosco fala-nos da nova situação em que a sua família deixa de ser como tantas famílias ‘normais’, e tem que aprender a crescer e amadurecer sem a figura de um pai, e com a figura de uma mãe que, certamente, demonstrou dotes excecionais. Isto se depreende de tudo o que com grande parcimónia vai narrando Dom Bosco. A grande estatura humana e cristã desta mulher camponesa, viúva e mãe, com uma família de cinco pessoas; uma mulher que recusou a proposta de um segundo casamento muito conveniente para ela. Os três filhos seriam confiados a um bom tutor que se ocuparia cuidadosamente deles. “O tutor, respondeu a generosa mulher, é um amigo; eu sou a mãe. Nunca os abandonarei, ainda que me ofereçam todo o ouro do mundo” .

E Dom Bosco conta-nos como sua mãe se preocupou com “instruí-los na religião”, ensinando-os a obedecer e ocupar-se de coisas da sua idade”.

Isto mostra-nos como a família que Joãozinho Bosco teve, atingido pela orfandade, contou com o amor profundo de uma mãe que entregou com plena dedicação a sua vida, uma mãe que foi para eles a primeira e mais importante catequista, mulher que lhes ensinou a ser responsáveis, trabalhadores e honestos, a ser caritativos com quem era mais pobre do que eles.

Uma mãe que faz tudo para que o seu filho possa seguir a sua vocação, o seu chamamento ao sacerdócio, apesar de tantas dificuldades e privações. 

Tendo-me centrado em Dom Bosco, parece-me muito oportuno citar outra grande mulher e santa da nossa Família Salesiana que também ficou muito ‘marcada’ pela realidade da sua família, diferente nalguns aspetos da de Dom Bosco.

Embora na pobreza de camponeses simples, a infância e família de Maria Domingas Mazzarello foi diferente. Ela não cresceu sem pai e foi a mais velha de um numeroso grupo de irmãos. Nem sequer teve que sair da sua Mornese natal durante toda a sua infância e juventude. E teve, sem dúvida, o mesmo clima de piedade.

Em última análise, outro modelo de família que marcou decisivamente a personalidade de Maria Mazzarello.

3.3 PRÓXIMOS PARA AJUDAR A CONSTRUIR E RESTAURAR

 Referi-me anteriormente à família de Jesus de Nazaré (O Senhor), e à família de Dom Bosco e de Madre Mazzarello para fazer notar a importância e transcendência da família nas suas vidas. E não tenho dúvidas de que a maior parte de nós, ao ler estas páginas, remontará de algum modo à sua própria experiência familiar, àquela que cada um viveu.

UMA REALIDADE CADA VEZ MAIS COMPLEXA

É um facto que a família, por mais contraditória e controversa que a sua realidade possa ser no tempo presente, continua a ser a estrutura originária da cultura humana . Remonta aos começos mesmos da humanidade e encontra-se presente em todas as culturas conhecidas, certamente com todo o tipo de configuração e modelos. Normalmente, a maioria das crianças e jovens crescem, ainda hoje, numa família onde recebem uma marca que será decisiva para as suas vidas.

Todavia, não se pode ignorar, e menos ainda negar, que a família, como estrutura originária a que anteriormente se fazia referência está a atravessar uma profunda transformação e crise. As causas e a explicação destas mudanças são das mais variadas e complexas.

Já vimos a abundante lista de situações e desafios que o Papa Francisco elenca entre os números 31 e 57 da Exortação apostólica.

Outros autores indicam mais alguns, se bem que todos apontem numa direção muito similar : as situações de miséria indignas de um ser humano, que tornam

impossível uma vida ordenada de família; as longas ausências da família por parte de um dos pais por motivos profissionais.

Múltiplas dificuldades económicas dificultam a convivência e a coesão familiar. São muitas vezes os fatores económicos que determinam os valores das mesmas famílias, o projeto familiar, as condições de bem-estar que se antepõem como condição prévia à paternidade e maternidade; mecanismos sociais, em última análise, de grande força e em que todos, de uma maneira ou de outra, nos vemos influenciados.

A isto se junta a crise antropológica de modelos de libertação que não se podem ignorar. Factos como a promoção de uma ‘cultura’ alheia à família que resulta numa desvalorização social da mesma e na ‘normalização’, e por vezes exaltação, da infidelidade conjugal; a renúncia à paternidade ou maternidade como libertação pessoal; a assimilação da ideia do filho como concorrente, ou inclusivamente como obstáculo a um maior bem-estar económico. O clima cada vez mais difundido e promovido da irrelevância social da família.

Por último, caberia referir-se ao complexo mapa dos chamados tipos de família.

Hoje pode falar-se de novas unidades familiares, famílias recompostas , como fenómeno emergente devido ao aumento de filhos ‘naturais’, ao aumento de divórcios, à mudança de parceiro para a convivência…, todos eles fenómenos que fazem emergir não só outras formas de família (monoparentais, recompostas, homoparentais), mas também formas de convivência segundo mais modalidades: matrimónio, união livre, pacto civil de solidariedade (Pacs), etc. Para fazermos uma ideia mais precisa da complexidade desta situação nalgumas partes do mundo, faço notar a título de exemplo o seguinte: uma família recomposta é, por definição, aquela que inclui um dos progenitores, o filho ou filhos de uma primeira união e o partner deste progenitor. Ora, esta é uma definição mínima, posto que as possibilidades deste modelo supõem que existem tipos de núcleos familiares muito diversos e numerosos. A socióloga Irène Théry chegou a identificar (já em 1993), 25 tipos de composições familiares recompostas diferentes .

Pode dizer-se que isto nos faz pensar numa realidade, que é a instituição familiar, cada vez mais complexa, sem esquecer que a diversidade cultural nos cinco continentes acrescenta muitos outros elementos a esta complexidade já indicada.

Perguntamo-nos se, perante esta realidade, podemos fazer alguma coisa em favor das famílias como educadores, educadoras, pastores e evangelizadores

A EMPATIA COMO PRIMEIRA E HUMANA RESPOSTA

É nestes contextos que caberia esperar de nós empatia face à dor e à fragilidade. E esta há de ser uma empatia que tem muito a ver com uma caraterística que é típica nossa: o espírito de família.

Por empatia entende-se essa habilidade cognitiva das pessoas para compreender o universo emocional de outras. Permite perceber os sentimentos de outras pessoas e leva a uma melhor compreensão das suas ações e da maneira de decidir sobre determinadas questões. A empatia permite, de certo modo, situar-se no ponto em que outras pessoas vivem.

Permite, como educadores e evangelizadores dos rapazes, raparigas e jovens, poder compreender o seu mundo familiar, por vezes complexo, e ser ponte e mediação em situações delicadas e importantes.

É nestes contextos difíceis que se pode esperar de nós empatia diante de famílias compostas de pedaços, ou famílias em que há fortes feridas, nas quais há egoísmos que criam roturas. Famílias com situações em que se fere, em especial, a alma dos filhos, ou onde por vezes estes são ‘reféns das discórdias’, como diz o Papa Francisco.

Pode-se esperar de nós empatia em situações existenciais em que havemos de ajudar a construir relações, a curar feridas; situações existenciais em que havemos de ajudar a ultrapassar medos, vendo, como no texto bíblico, “a cana fendida que ainda não se quebrou” .

Empatia quando as famílias, como terá também acontecido nas nossas, devem aprender a ser família, entre erros que apelam à humildade e à compreensão, ao perdão e à misericórdia, dado que na família todos têm direito ao perdão e todos têm direito a perdoar para construir a própria família e reconstruir-se.

Empatia quando se trata de ajudar a aceitar a própria limitação e a dos outros, posto que isto oferece a cada membro da família a oportunidade de se enriquecer do amor que lhe oferecem e de enriquecer os outros com a própria doação, já que a gratidão é o ponto de partida para construir a família. 

Empatia, por fim, para ajudar a construir e restaurar situações de vida.

ATITUDE PRÓPRIA DO NOSSO ESPÍRITO DE FAMÍLIA

Em diversos contextos da nossa Família Salesiana no mundo também se dão variadas e complexas situações. E os nossos rapazes e raparigas, tal como as suas famílias, devem poder esperar de nós esta capacidade de compreensão, de empatia, de proximidade do seu sentir, porque é assim que há de continuar a nossa maneira de ser, a ter um forte e belo espírito de família.

Este espírito de família era convicção fundamental em Dom Bosco e nele se inspira ao pensar a sua obra, ao sonhá-la, desenhá-la e sustentá-la , onde reine o amor, em clima sempre franco e de familiaridade. Este espírito de família há de caraterizar-se também por um “estilo de sincera fraternidade, de afabilidade, de aberto acolhimento, de contacto humano, simples e cordial com todos” , distinguindo-se sempre por uma relação humana serena e acolhedora.

Os nossos jovens e as suas famílias deveriam ter a possibilidade de experimentar que as casas salesianas da nossa família em todo o mundo são presenças que cuidam a vida, as suas vidas; presenças onde cabe esperar que as portas estejam abertas e que haja um clima humanizador a acolhê-las e a acompanhá-las nas circunstâncias da sua vida tantas vezes difíceis. Deveriam experimentar que, tal como faria Dom Bosco, são bem recebidos e nunca julgados ou condenados, dado que, mesmo quando se deva dizer que uma coisa não é possível ou não se pode conceder, dir-se-á com sumo respeito pela dignidade das pessoas e com sentido de equidade e justiça, e deste modo não estaremos a defraudar naquilo que mais deveria distinguir-nos como família de Dom Bosco no mundo.

3.4 NA ESCOLA DE VIDA E DE AMOR QUE É A FAMÍLIA

Esta é uma das chaves fundamentais da Exortação Apostólica ‘Amoris Laetitia’, e questão de suma importância no nosso contributo como Família Salesiana perante a chamada que a Igreja faz em favor das famílias: a tomada de consciência das famílias, na diversidade da sua configuração e na variedade de contextos culturais, da sua grande missão como escola de Vida e de Amor.

Algumas pessoas, grupos e instituições estaremos a seu lado, mesmo até fazendo caminho juntos, mas nunca suprindo o que é insubstituível nas famílias: o seu chamamento existencial a ser «comunidade de amor e vida».

→ Um contributo às famílias poderá ser ajudá-las a tomar consciência de que são verdadeiro «património da Humanidade»  e a primeira e comum escola de humanidade onde se desenrola e cultiva a vocação do amor, já que nas famílias, a não ser que estejam profundamente estragadas, não se pensa só no próprio benefício de cada um, mas também no bem dos outros. Cada membro da mesma é reconhecido como um bem em si mesmo e existe, em geral, uma atenção preferencial para com os mais débeis nas mesmas: as crianças, os doentes, os deficientes e os anciãos.

→ Outra realidade bela da família é a de ser escola de vida e amor porque a família é lar. Esta palavra, ‘lar’, assume uma carga muito afetuosa em algumas das nossas culturas por ser uma realidade que tem um valor muito mais amplo que o espaço físico da casa. «Lar é ninho», berço da vida. É o lugar por excelência da vida, recebe-a com responsabilidade, educa-a com generosa entrega, celebra-se com festiva alegria, alimenta-se com o pão do trabalho e das lágrimas, cura-se quando está ferida e chora-se quando já não se tem».

De facto, quando falta a família é muito difícil substituí-la e os serviços sociais dos Estados só chegam a compensar ou atenuar, dentro do possível, o grande vazio existente.

Na realidade, «para a criança, a família é um ‘recurso’ infinito de primeiro plano; e continua a sê-lo para o adulto».

→ Acompanha-se vitalmente as famílias quando se ajuda os pais, por vezes o pai ou a mãe que está sozinho a levá-la por diante, a descobrir o valor fundamental que tem o apoio afetivo que dão aos seus filhos. Supõe fazer o que é humanamente possível para que os filhos se sintam profundamente amados, pois isto ajudá-los-á a crescer com equilíbrio e em harmonia, já que o amor é como o fogo que mantém aceso o lar. «Ama-se um filho por ser filho, não por ser bonito ou por ser desta ou daquela maneira; não, por ser filho. Não por pensar como eu nem por incarnar os meus desejos. Um filho é um filho» , diz o Papa Francisco. Significa, portanto, aceitar os filhos como são e dedicar-se a eles em tempo e atenção. Não será suficiente que um pai ou uma mãe pensem que lhes dedicam pouco tempo mas de qualidade. Será necessário que a quantidade de tempo seja proporcionada às necessidades dos filhos, e quem não souber estar nos pormenores e nas coisas pequenas da vida dos filhos, corre o risco de, quase sem se dar conta, se ir afastando deles lentamente.

→ Nas famílias mais estáveis a vida dos pais carateriza-se pela entrega, por essa doação mútua no amor de ambos aos filhos. Na Exortação proclama-se com força que toda a criança que vem à vida tem o direito de receber o amor de uma mãe e de um pai , ambos necessários para alcançar um amadurecimento íntegro e harmonioso. E «não se trata só do amor do pai e da mãe em separado, mas também do amor entre eles, percebido como fonte da própria existência, como ninho que acolhe e como fundamento da família» .

Sabemos que nem sempre é possível contar com a presença de ambos. São milhões no mundo as famílias em que os filhos vivem só com o pai ou com a mãe, mas nem por isso se deve renunciar a propor o grande valor que tem o testemunho de ambos, pai e mãe, para os filhos e filhas.

Ao mesmo tempo, seja qual for a composição da família, não se há de esquecer que a entrega e doação dos pais forja os valores que os filhos adquirem e prepara-os mais e melhor para enfrentar as dificuldades que se hão de encontrar na vida.

→ A família é também escola que prepara para a vida quando se ensina e aprende o diálogo, a comunicação e a compreensão. Quando na família se vivem estes valores, os filhos aprendem a escutar, a conversar, a partilhar e interessar-se pelas coisas do lar, da casa e das pessoas. E bem sabemos que conviver, compreender, desculpar e perdoar, andam de mãos dadas.

Quando se favorece este clima, a família converte-se em espaço de vida que cuida a reciprocidade e busca o bem dos outros a partir do respeito por cada um e seus processos. Há de aprender-se a viver em situações que são antagónicas mas que, certamente, preparam para a vida a fomentar:

* o diálogo e a responsabilidade
* a autonomia e a solidariedade
* o cuidado de si mesmo e a busca do bem de todos
* a sã competitividade por ter o próprio lugar na família e a capacidade de perdão
* a disponibilidade para a comunicação e, ao mesmo tempo, a escuta e o silêncio respeitoso.

→ É na família que se há de aprender também a conhecer e experimentar os limites. Nada do que aconteça a alguém no seio da família pode ser alheio aos outros, e menos ainda quando se trata dos filhos. Por isso os pais, ou o pai ou a mãe, se é só um deles que está à frente da família, hão de ter a todos no seu pensamento e no seu coração, vão lá para onde forem ou aconteça o que acontecer. Isto exigirá dos pais ser bons observadores que olham para os seus filhos com o olhar atento do coração, e os tornam capazes de pôr limites à liberdade dos filhos para o bem destes. «Faz sempre falta uma vigilância. O abandono nunca é saudável… Mas a obsessão não é educativa» .

É por isso, diz o Papa, «que o que sobretudo interessa é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de capacitação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia» .

→ Os mais valiosos e essenciais valores (o amor, a liberdade, a justiça, o respeito, a laboriosidade, a honradez…) lançam as suas raízes na vida familiar, e esta aprendizagem a partir da vida e do afeto é decisiva e fundamental para os filhos.

Por isso, trabalhar educativamente para arraigar o essencial há de ser preocupação permanente de pais e educadores.

Daí os esforços por educar na  liberdade, a responsabilidade, o desenvolvimento ético e moral, a afetividade, a vontade, a empatia, a proximidade e o cuidado dos outros e da criação, bem como no amor e na sexualidade responsável. Tudo isto é o grande empenhamento na formação das pessoas, e a família tem um papel fundamental, devendo contar com a ajuda de outras instituições e, em particular, a partir da nossa visão e convicção, com a ajuda da Igreja.

→ Perante a realidade de muitas sociedades tão marcadas pela aspiração à vida cómoda e fácil como o mais importante, e ao conforto e ao bem-estar como meta primeira e última pensando que o dinheiro pode tudo, é de vital importância educar em família a sobriedade e a moderação, no consumo do necessário e não do supérfluo, no valor da simplicidade de vida.

Os pais que afogam os seus filhos na abundância de coisas supérfluas correm o risco de descurar o que mais necessitam: a sua orientação e critérios, o seu afeto e amor. Diz a tal respeito o Papa Bento XVI: «Também o sofrimento faz parte da verdade da nossa vida.

Por isso, ao tratar de proteger os mais jovens de qualquer dificuldade e experiência de dor, corremos o risco de formar, apesar das nossas boas intenções, pessoas frágeis e pouco generosas, pois a capacidade de amar corresponde à capacidade de sofrer, e de sofrer juntos» .

É certo que são muitas mais as famílias que vivem na ‘pobreza forçada’, e nem sequer ao mais necessário podem aspirar. Sabemos que não é equitativa a distribuição dos bens. Todavia é oportuno indicar que a nossa ajuda às famílias passa através da orientação acerca de como educar os seus filhos neste sentido, sem dar por descontado que esta mentalização pode ser mais necessária ainda para muitos pais.

→ O compromisso é vital na vida das pessoas, e sê-lo-á na vida dos filhos. A família prepara para a vida quando ensina que ser pessoas comprometidas significa também usar a liberdade e respeitar a palavra dada; descobrir que exercitar a liberdade é muito mais do que decidir entre o que me agrada ou desagrada. Significa aprender quão importante é a responsabilidade e a laboriosidade, e é muito importante quando na família se aprende que se pode ser livre comprometendo-se com o que se faz.

→ A partir do nosso olhar perante a vida e os valores que nos movem, o grande presente que os pais podem dar aos seus filhos é o processo de transmissão da fé, e uma fé comprometida e ativa. «A família deve continuar a ser o lugar onde se ensine a perceber as razões e a beleza da fé, a rezar e a servir o próximo» . Sabemos que a fé é dom de Deus e não resultado das nossas ações «mas os pais são instrumentos de Deus para o seu amadurecimento e desenvolvimento» . Certamente, como mais adiante diz o Papa neste número, esta transmissão da fé pressupõe que os pais vivam esta mesma experiência real de ter fé em Deus, de O buscar e sentir necessidade d’Ele, porque só desta maneira «uma geração conta à outra as tuas obras e anuncia as tuas ações» (Sl 144,4).

→ Tudo isto nos fala da ‘liderança artesanal’ dos pais, ou dessa mãe ou pai que com heroicidade estão a levar por diante a sua família. Por ‘liderança artesanal’ entendemos, neste contexto, que cada um dos filhos e filhas representa uma tarefa única, a mais parecida à realização de uma obra de arte que, se bem que nunca esteja de todo terminada, se realizará na medida em que cada filho esteja capacitado para transitar com segurança, por si mesmo, pela vida. 

3. 5. DECISIVA MISSÃO PASTORAL SALESIANA:
ACOMPANHAR E GERAR PROCESSOS

Tudo o que se expressou até ao momento, com abundantes indicações e sugestões, permite oferecer à nossa Família Salesiana algumas orientações pastorais e pedagógicas, diante deste belo e muito atual desafio:

→ Perguntamo-nos como acompanhar os pais, os casais e os que estão à frente da sua família…?

→ Como acompanhar os filhos, especialmente os que estão nas casas salesianas, tantos rapazes e raparigas do mundo?

→ Como acompanhar mediante a nossa pastoral juvenil, familiar e paroquial, os jovens que estão a amadurecer como projeto pessoal de vida o matrimónio e formar uma família?

E isto pede à nossa pastoral algumas iniciativas, ações e decisões:

1. Apostemos decididamente em considerar uma prioridade educativo-pastoral a atenção às famílias. Sem dúvida tantas vezes dito em múltiplas assembleias e capítulos provinciais ou mesmo gerais. É altura de verificarmos em cada presença salesiana do mundo que não se pode considerar quase nenhuma tarefa educativa e pastoral com os rapazes, raparigas e jovens, que não contemple como estar em real conexão e comunicação com suas famílias e como envolvê-las. «Para que as famílias possam ser cada vez mais sujeitos ativos da pastoral familiar, requer-se ‘um esforço evangelizador e catequístico dirigido à família’, que a oriente neste sentido . Devemos convencer-nos de que não é suficiente ter clara a prioridade dos jovens como destinatários da nossa missão.

Hoje, mais do que nunca, esta missão educativa e evangelizadora é inseparável da família.

2. Demos passos decisivos e firmes em exigir-nos o acompanhamento como opção prioritária, por meio de iniciativas concretas e práticas segundo os contextos:

→ Um acompanhamento dos pais e casais que o aceitem.

→ Um acompanhamento real dos rapazes, raparigas e jovens das presenças salesianas do mundo, em especial diante de situações familiares e pessoais difíceis.

→ Um acompanhamento vocacional de todos os jovens e, entre eles, também os que desejam amadurecer um projeto pessoal de vida para o matrimónio.

→ Um acompanhamento, que há de concretizar-se em proposta de espiritualidade e de Fé como sentido da vida, nas mais diversas realidades das famílias com as quais nos encontramos.

3. Ajudemos as famílias a educar e crescer a partir do afeto do coração com tudo o que isto implica no nosso sistema educativo (Preventivo). Sabemos como é lento o caminho de crescimento e amadurecimento humano. Ao primeiro nascimento, segue-se outra iniciação à vida mediante a transmissão de valores. 

Para isso «os filhos precisam do espaço protegido e da segurança afetiva no amor dos pais; ao invés, os filhos fortalecem e enriquecem o laço de amor entre os vínculos dos pais» , e o nosso papel de educadores e evangelizadores há de priorizar esta dimensão. Neste sentido havemos de estabelecer pontes permanentes com os pais para ver, juntamente com eles, como continuar a cuidar dos educandos, tanto nas famílias como nas nossas presenças, e sempre para o bem de seus filhos, o acolhimento, a escuta, o diálogo que evita impor a autoridade sem razões, a relação próxima, o respeito aos próprios tempos, a comunicação pessoal, o afeto que ultrapassa barreiras e distâncias…

Na mesma carta já indicada, o Papa Bento XVI sublinha, referindo-se ao que qualificou como «emergência educativa», a necessidade de educar sobre a base do amor. «Antes de tudo, precisa da proximidade e da confiança que nascem do amor: Penso na primeira e fundamental experiência de amor que as crianças fazem – ou que, pelo menos, deveriam fazer – com seus pais. Mas todo o verdadeiro educador sabe que, para educar, deve dar algo de si mesmo e que só assim pode ajudar os seus alunos a superar os egoísmos e capacitá-los para um amor autêntico» .

Entendemos bem o que se quer dizer recordando Dom Bosco que nos pede que os jovens não só sejam amados mas que sintam que são amados, e devemos ser capazes de transmitir isto com forte convicção aos pais.

4. Acompanhemos e demos apoio aos pais na sua missão educativa, envolvendo-os em tudo o que for possível, já que estes muitas vezes, mesmo tendo um grande desejo de assumir a sua responsabilidade como primeiros educadores, não sabem como fazer. «Intensifique-se a colaboração com a família, primeira educadora dos filhos e filhas. Para isso, nas nossas obras devemos oferecer um ambiente educativo rico em valores familiares», diz o CG 24 dos SDB . Deveremos ser criativos; algumas iniciativas tiveram êxito no seu tempo e depois deixaram de o ter.

Nem sempre é fácil motivar os pais, mas esta dificuldade tem de nos levar com mais força a pensar, juntamente com eles, o que podem precisar. «A tal respeito seria desejável um diálogo mais profundo com pais e mães, em que se sondasse de que maneira pode aqui integrar-se o potencial da família» .

5. Tomemos muito a sério a ajuda aos pais na educação para o amor e a educação sexual de seus filhos e filhas. O Papa Francisco indica na Exortação que «deveríamos perguntar-nos se as nossas instituições educativas assumiram este desafio» , referindo-se ao que já pedia o Concílio Vaticano II na declaração ‘Gravissimum educationis’. Muitos indicadores parecem pôr em evidência que nas presenças salesianas do mundo retrocedemos nesta responsabilidade. Pareceria que a dificuldade ambiental nos limitou muito. No entanto, como educadores e educadoras sentimos como dever educar no amor os nossos destinatários; cremos que fomentar em nossas casas um clima educativo rico de comunicação e afeto é uma grande lição sobre o amor. Achamos necessárias tanto uma educação afetivo-sexual adequada como uma catequese cuidadosa que ajudem a compreender aos jovens a realidade e dimensões do amor .

6. Ofereçamos com estilo salesiano mediação e ajuda aos pais face às suas situações pessoais de dificuldade e crise, assim como da sua própria família. E embora o ponto de chegada possa ser recomendar-lhes a ajuda de outros profissionais perante as suas dificuldades matrimoniais, nós, como educadores, educadoras e pastores, havemos de ser uma ponte muito importante para o bem dos seus filhos. É fácil compreender que se podem cometer erros no que se refere ao próprio matrimónio e família. O nosso serviço consistirá, na medida do possível, em ajudar uma e outra vez a ir ao encontro do outro, buscar caminhos que renovem a comunicação, propor o perdão mútuo como meio, permitir novos começos. Em última análise, ajudar a crescer e amadurecer graças à relação com o outro.

7. Sejamos casa aberta para todos  nas igrejas domésticas dentro da única Igreja. Em muitas partes do mundo as igrejas domésticas foram sustentáculo e salvaguarda da fé diante das perseguições, da falta de liberdade religiosa, etc. Não raramente, os pais, e os filhos com eles, estão afastados de toda a vivência religiosa ou ignoram por completo de que se trate. Neste sentido as nossas presenças salesianas no mundo com os seus grupos e associações, as nossas comunidades religiosas, os diversos grupos apostólicos, os grupos de oração, os grupos bíblicos ou catequese de adultos, o voluntariado, etc., podem ser o espaço e a atmosfera espiritual adequada para acolher e integrar grupos de pais e famílias.

8. Acompanhemos os jovens no seu projeto de vida de matrimónio. Será o matrimónio cristão, celebrado e vivido como sacramento, um ‘modelo descatalogado? Foi o Papa Francisco que, ao celebrar o VII Encontro Mundial das Famílias em Milão, no ano 2012, lançou aos jovens o desafio do matrimónio dizendo-lhes que «é possível e gozoso, embora com esforço, viver o amor fiel, para sempre, aberto à vida». Indubitavelmente, ajudar os jovens a descobrir a riqueza e o valor do matrimónio é de suma importância. Os jovens «devem poder perceber o caráter atrativo de uma união plena que eleva e aperfeiçoa a dimensão social da existência, confere à sexualidade o seu maior sentido, ao mesmo tempo que promove o bem dos filhos e lhes oferece o melhor contexto para o seu amadurecimento e educação” . Com olhar crente, o ideal cristão parte da convicção de que para as pessoas é bom comprometer-se numa decisão livre, e propor-se juntas uma meta elevada e ambiciosa, algo que é muito diferente da simples idealização do matrimónio.

→ Por isso havemos de ajudar os jovens a descobrir que é bom desejar aquilo que o matrimónio e a família oferecem quando vão bem.

→ Ajudá-los a pensar com serenidade que, a partir do amor, este projeto de vida é possível para eles, se tal for a sua vocação e chamamento de Deus.

→ Poderemos caminhar a seu lado para que com realismo possam ver o perigo de uma realização que dececione ao não encontrar a satisfação de todos os anelos sonhados.

→ Deveremos ajudá-los a descobrir que no matrimónio cristão há algo de muito belo, como é que o amor se situa no horizonte de Deus. Isso significa o sacramento como sinal eficaz do Amor de Deus neles.

9. Ajudemos os pais e famílias a entender, especialmente nos momentos difíceis, que espiritualmente, todo o matrimónio e família está sob a lei do processo e da gradualidade  assim como do crescimento que se renova continuamente e se aprofunda no Mistério de Cristo.

Há muitos elementos ricos para partilhar com pais e filhos, tais como o valor de exercitar uma e outra vez a tolerância e a paciência; o tempo que hão de dedicar um ao outro; as manifestações de carinho, de afeto, de ternura e de grande respeito; o agradecimento mútuo e o amor. Também o valor da oração em família e a celebração da fé. Pensando no matrimónio, «é algo muito belo encontrar-se com casais já idosos que, apesar da sua avançada idade, estão enamorados de uma forma madura. Isto é sinal de um viver humano salvo, humana e espiritualmente maduro» .

10. Façamos parte deste longo caminho de reflexão e discernimento que a Igreja está a realizar, com maior atenção à realidade familiar, e a prioridade da misericórdia como valor essencial do Evangelho. Este terá de refletir-se na nossa prática educativa e pastoral. Havemos de estar profundamente convencidos da gradualidade na ação pastoral com as famílias, e incorporá-la na nossa visão, programação e trabalho educativo-pastoral.

11. Tudo isto unido a muitas outras iniciativas e critérios que convido a pensar localmente, nos diversos contextos e à luz do que já foi sugerido.

Podem servir de exemplo aspetos como estes:

→ Não ter medo de oferecer valores humanos morais e espirituais aos nossos jovens e suas famílias. 

Poderia dizer-se que, em geral, as famílias necessitam e agradecem.

→ Em tudo o que for possível devemos contribuir para cuidar e fomentar nas famílias este sentido da alegria de amar.

→ Cuidemos nas nossas casas, muito especialmente para os nossos destinatários e suas famílias, a hospitalidade e acolhimento como expressão da nossa disponibilidade.

→ Fomentemos nas nossas presenças que outros casais possam ser os primeiros animadores, guias, acompanhantes, educadores e apóstolos de casais que possam necessitar.

→ Que excelente oportunidade, o nosso acompanhar as famílias, para trabalhar em favor de toda a erradicação da discriminação das meninas e da mulher.

→ Aproveitemos as experiências de ‘boas práticas’ de muitas casas em relação às famílias, compartilhemo-las e demo-las a conhecer.

→ Analisemos muito a sério qual está a ser a nossa atitude de empatia com os pais e mães de família que tantas vezes vivem situações de dor e angústia.

→ Desenvolvamos mais ainda a força pastoral das nossas Comunidades Educativo-Pastorais porque temos a sorte de que a nossa ação educativa e evangelizadora é, antes de tudo, comunitária.

→ Certifiquemo-nos de que as nossas casas salesianas do mundo ofereçam um rosto e modelo de Igreja que permitam aos pais e famílias descobrir ou redescobrir a fé adormecida ou abandonada.

→ E voltemos decididamente, uma e outra vez, ao clima de Valdocco.

Concluo este apelo que faço à Família Salesiana em favor das famílias e seus filhos e filhas nos lugares onde nos encontramos, citando um belo texto da Exortação Apostólica e apresentando também a oração final à Família de Nazaré.

«O nosso ensino sobre o matrimónio e a família não pode deixar de se inspirar e de se transfigurar à luz deste anúncio de amor e de ternura, para se não converter numa mera defesa de uma doutrina fria e sem vida. Porque o mistério da família cristã não pode entender-se plenamente se não for à luz do infinito amor do Pai, que se manifestou em Cristo, que se entregou até ao fim e vive no meio de nós. Por isso, quero contemplar a Cristo vivo presente em tantas histórias de amor, e invocar o fogo do Espírito sobre todas as famílias do mundo» .

Oração à Sagrada Família

Jesus, Maria e José,
em Vós  contemplamos
o esplendor do verdadeiro amor,
a Vós, confiantes, nos dirigimos.
Sagrada Família de Nazaré,
fazei também das nossas famílias
lugar de comunhão e cenáculo de oração,
autênticas escolas do Evangelho
e pequenas igrejas domésticas.
Sagrada Família de Nazaré,
que nunca mais haja nas famílias episódios
de violência, de intolerância e divisão;
que quem tenha sido ferido ou escandalizado
seja prontamente consolado e curado.
Sagrada Família de Nazaré,  
fazei tomar consciência a todos
do caráter sagrado e inviolável da família,
da sua beleza no projeto de Deus.
Jesus, Maria e José,
escutai, acolhei a nossa súplica.

Ámen.


1. Pascual Chávez, Carta do Reitor Mor: “E Jesus crescia em sabedoria, em idade e em graça” (Lc 2,52) ACG nº 392, 3-46
2. Amoris Laetitia, 36
3. O primeiro Sínodo sobre a família: de 5 a 19 de outubro de 2014 (no Vaticano) – Tema: “Os desafios pastorais sobre a família em contexto de evangelização”; o segundo Sínodo, de 4 a 25 de outubro de 2015 (no Vaticano) – Tema: “A vocação da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. Nestes Sínodos participaram bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e pessoas casadas.
4. No salmo 128 lê-se: Felizes os que obedecem ao Senhor e andam nos seus caminhos. 2Comerás do fruto do teu próprio trabalho: assim serás feliz e viverás contente. 3A tua esposa será como videira fecunda na intimidade do teu lar; os teus filhos serão como rebentos de oliveira ao redor da tua mesa. 4Assim vai ser abençoado o homem que obedece ao Senhor. 5O Senhor te abençoe do monte Sião! Possas contemplar a prosperidade de Jerusalém todos os dias da tua vida, 6e chegues a ver os filhos dos teus filhos. Paz a Israel!” (Salmo 128/127, 1-6)
5. Amoris Laetitia, 19
6. O sublinhado é opção pessoal para realçar os vínculos familiares.
7. o.c. 38
8. Ibid, 58
9. Giovanni Paolo II, Catechesi (12 marzo 1980), 3: Insegnamenti III, 1 (1980), 543, citado em Amoris Laetitia, 168
10. Amoris Laetitia, 171
11. Ibid,174
12. Este é o título de um trabalho do Prof. Juan José Bartolomé, intervenção preparada para as Jornadas da Família Salesiana sobre a família em janeiro de 2006. Não foi publicado. O conteúdo do que escrevo neste apartado inspira-se em grande medida neste trabalho.
13. Christifideles Laici, 40
14. Exatamente, dizem os estudos críticos, morreu a 11 de maio de 1817
15. Instituto Histórico Salesiano, Fuentes Salesianas. Don Bosco y su obra. Editorial CCS, Madrid, 2015, 1059-1060
16. “Don Bosco hace aparecer de nuevo su más lejano recuerdo de la muerte de su padre; esto es poco verosimil porque  esto acontece cuando el pequeño Juan tenía solamente dos años. Es probable que él haya recordado cuanto los adultos del círculo familiar evocaron en los años sucesivos”. Citado en  Giacomo Dacquino, Psicologia di Don Bosco, SEI, Torino, 1988, 19
17. Instituto Histórico Salesiano, o.c. 1061
18. Walter Kasper, El futuro de la familia desde la perspectiva cristiana, en Goerge Augustin (ed). El matrimonio y la familia. Sal Terrae, Cantabria, 2014, 146
19. Cf. Walter Kasper, o.c. 146-147; Cf. Reinhard Marx, No te despreocupes de tus parientes, en Georges Augustin, o.c. 164-174; Cf. Christoph Schônborn, Cinco recordatorios… en Georges Augustin, o.c. 216-218; Cf. Pascual Chávez, “E Gesù cresceva in sapienza, età e grazia” (Lc 2,52) ACG n.º 392, Roma, 2006,  8-13; Cf. David Le Breton-Daniel Marcelli (de), Dizionario dell’adolescenza e della giovinenzza, LAS, Roma, 289-292
20. Cf. David Le Breton-Daniel Marcelli, o.c. 290-291
21. Cf. Ibid. 291
22. Mt 12,20; Cf. Is 42,3
23. Cf. XX Capítulo Geral Especial, n.º 649
24. Ibid, 427; Cf. CGXXIV, n.º 91-93; Cf. Pascual Chávez. Carta do Reitor-Mor, o.c.,41
25. Concilio Vaticano II, GS 48
26. Documento de la Asamblea Latinoamericana de Obispos en Aparecida, n.º 302 y 402
27. Card. Jorge Mario Bergoglio, La familia a la luz del documento de Aparecida. Articulo publicado en Familia e Vita, XIII, n.º 2-3/2008, 64-72, y citado en Papa Francisco y la Familia,LEV-Romana, 2015, Madrid, 51
28. Walter Kasper, El futuro de la familia desde la perspectiva cristiana, en Goerge Augustin (de), o.c., 169
29. AL 170
30. Cf. AL 172
31. AL 172
32. AL, 260 e 261
33. AL, 261
34. Cf. AL, 262,262,263,264,268,282,283
35. Bento XVI, À Diocese de Roma sobre a tarefa urgente da educação (21 janeiro 2008)
36. AL 287
37. Ibidem
38. AL, 200 
39. Walter Kasper, El futuro de la familia desde la perspectiva cristiana, en Goerge Augustin (de), o.c., 150
40. Bento XVI, À Diocese de Roma sobre a tarefa urgente da educação (21 janeiro 2008)
41. CGXXIV,177; Pascual Chávez, o.c. 41
42. Walter Kasper, o.c. 175
43. AL, 280
44. Cf. XXIII Capítulo Geral da Sociedade de São Francisco de Sales, Educar os jovens para a fé. Roma, 1990, 195-202
45. Cf. Walter Kasper, o.c.,159-160
46. AL, 205
47. Walter Kasper, o.c.,156
48. Ibidem
49.  AL, 59

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