"A
visão, o entendimento, a percepção das distintas realidades passa
simplesmente por "Estar lá".
A
compreensão do mundo, do Homem, a forma como ele “respira”, se organiza,
o seu dia-a-dia, não cabe e jamais caberá num editorial, folha de um
jornal ou até num canal televisivo, por mais profissionais e
perfeccionistas que sejam os seus autores.

A
visão, o entendimento, a percepção das distintas realidades passa
simplesmente por “Estar lá!”.
Eu
estive lá. Apercebi-me da ainda maior complexidade de toda a Natureza,
sentimentos, crenças, relações, criações Humanas.
Sinto
profundamente que o rasto deixado por mim é fraquíssimo e tão ténue. O
que leva a minha mochila, máquina fotográfica, o meu “diário”, o meu
pensamento, personalidade, identidade, o meu coração, a minha alma... é
incomparavelmente superior.
Resta-me dizer que há cerca de oito meses atrás, parti, encaminhada pela
Vida, ao encontro de uma missão em Moçambique. Torna-se
extraordinariamente difícil transcrever de forma tão sucinta, aquilo que
foi vivido de forma intensa e entregue àquele dia-a-dia despido de
excessos, enchido irremediavelmente por crianças e jovens em busca de um
rumo, que lutam com uma força que nem eles próprios reconhecem.
Este
é um “terreno” muito complexo. Moçambique é um país com tradições
extremamente bem demarcadas. Para além disto o “terreno é muito
amplo”... os sorrisos e simpatia dos jovens e das crianças, dos homens e
das mulheres confundem-se com as dificuldades profundas. Muitos não têm
que comer, outros têm o suficiente... mas aqui em Maputo, o principal
problema já não é ter o que mastigar, mas sim, ter oportunidade de
trabalhar e receber com dignidade; ter o privilégio de receber valores,
educação, amor (sentimentos mais profundos); ter a possibilidade de
estudar numa escola em que o centro seja o aluno e não o professor...
Estou convencida de que os professores são o
principal “motor” deste país, constituído essencialmente por jovens e
crianças. Aí os Salesianos têm um papel fundamental e motivador... aí o
seu carisma encaixa na perfeição. Não há políticos, nem polícias, nem
médicos, advogados, nem pais, tios ou tias capazes de substituir o papel
do professor.
A maioria das famílias vivem numa luta diária...
muitas delas não sabem o que é ter um plano concreto de vida, porque
simplesmente trabalham para comer, pagar o transporte para o trabalho,
pagar os estudos dos filhos... para essas famílias não há contas
poupança... vivem simplesmente para o presente.
Por outro lado, encontramos no nosso Maputo uma
realidade contrária, disparamos em segundos de um oposto ao outro.
Pessoas riquíssimas, sem limites de poder... um poderio doente que se
sobrepõe a muitos valores que fazem parte da natureza humana, mas que se
dissipam em instantes perante aquilo que controla o mundo e o coração
dos Homens, o dinheiro.
Há muito para fazer neste país, mas muito mais para
aprender com estas pessoas acolhedoras, alegres e simples.
Tive o privilégio de sentir um pouco o sabor de
experimentar algumas realidades distintas.
O meu trabalho incidiu essencialmente em
auxiliar/assessorar na estruturação do departamento de ciências de
administração do Instituto Superior Dom Bosco, também tive o privilégio
de leccionar o módulo de introdução à gestão a alunos do ensino à
distância, numa fase presencial, cujas idades variavam entre os 30 aos
50 anos e a duas turmas do ensino normal.
Paralelamente a isto, convivi com os miúdos do lar de
S. José, as meninas da Casa Mãe Clara e as crianças do Xamanculo que
recebem diariamente uma refeição das irmãs Franciscanas. Não convivi
tanto quanto gostaria mas o suficiente para que fiquem comigo, sempre.
Estive 2 semanas com os jovens, naquela natureza
magnífica, de Inharrime, onde os acompanhei aos oratórios nas escolinhas
mais escondidas da Vila. Brincámos, conversámos, cantámos... são
crianças, adolescentes com princípios bastante bem orientados.
Muitas vezes sonhava que estava no meio/envolvida por
aqueles que “não têm nada”, sempre quis que essas pessoas partilhassem
comigo a sensação de “não ter nada”, só tive de materializar essa
vontade. Também porque me encontrava num período de vida que me “pedia”
que tomasse uma atitude altruísta. Foi esta a atitude!!
Vim para Moçambique por intermédio do Padre Amadeu,
do colégio dos órfãos do Porto.
Jesus
recompensou-me através das pessoas que conheci, que me acolheram e que
me ensinaram imenso. Isso é impagável.
Orgulho-me deste enorme fragmento do meu passado, orgulho-me ainda mais
de ter a capacidade de reconhecer que a vida sem relações humanas,
trocas de aprendizagens, sentimentos, sorrisos, lágrimas, ideias,
cumplicidades… não tem sentido absolutamente nenhum.

Sinto-me uma afortunada por saber que nunca mais voltarei a ser a
mesma.
Um
obrigada repleto de carinho a todos os Salesianos que me acolheram e me
aceitaram como a Raquel.
“Estamos juntos…”
Sara
Raquel